2017 - 1º Semestre

A Amnésia (França 2015)

Filme do dia 06 de maio de 2017

Comentários de Claudia Rodrigues e Oswaldo Marba Ribeiro

Tema do Semestre: “Quando o não dito torna-se mal dito”

 

Amnésia – filme baseado em uma história real.

A informação que temos é que a trama é focada na história de vida da mãe do diretor Barbet Schroeder, que escolheu Ibiza como um voto de retiro, quando desejou apagar da sua vida todos os traços traumatizantes do regime alemão revelados após a 2ª Guerra Mundial. O foco é a mãe do diretor.

 Como pensar em um filme com foco em uma mãe e no qual o filho não existe? A Amnésia parece que começou antes do filme começar.

Essa mesma informação nos alerta para os traços traumatizantes do regime nazista.

O filme nos mostra imagens e diálogos relativos a cercam de 50 anos, após a 2ª Guerra Mundial. Podemos pensar em como Hitler e o nazismo traumatizaram milhões de pessoas. Poderíamos falrt de milhões de mortos e sobreviventes traumatizados. A psicanálise, também teoriza sobre esses assuntos; Freud fala sobre isso em seu artigo “ O mal-estar na civilização”.

Entretanto, julgo que falar da Alemanha, neste momento seria equivalente a termos uma “amnésia”, e esquecermos o que realmente o filme nos mostra. Ele não mostra nem Hitler, nem a guerra; mostra quatro pessoas falando de seus traumas, mas somente uma, Marta, cita que foi a Alemanha, Hitler, o nazismo e a guerra que a levaram à situação em que se encontra.

Jo só se mostra traumatizado no fim do filme, quando ele se pergunta: “Como poderei continuar me relacionando com meu avô? E se essa estória não for a última?

A mãe dele nega o trauma, argumenta que tinha somente seis anos, quando os Russos invadiram a Alemanha e diz estar bem porque está ajudando a recuperar a Alemanha, está cumprindo seu papel.

O avô, Bruno, nega o trauma e inventa estórias sobre o passado que não se cansa de contar, mas sempre relata estórias diferentes.

Acredito que não foi a mesma situação traumática para os quatro.

Como psicanalista julgo que devemos interpretar o filme da mesma maneira que interpretaríamos um sonho, procurando ver e entender o que está por baixo das imagens e dos diálogos, qual o sentimento que faz surgirem aquelas falas e comportamentos, aquilo que não aparece por estar reprimido.

Freud teoriza que quando entra em cena a repressão, ela retira o problema da consciência e joga-o no inconsciente.

Freud descobriu o mecanismo da repressão, mas também descobriu que não conseguimos reprimir emoções e afetos. Se reprimirmos o fato que os provocou, eles não somem nem são esquecidos, eles se ligam à algum outro fato. Como regra, esta nova ligação se mostra inadequada e essa inadequação nos mostra o caminho que leva ao que foi reprimido.

Entretanto, ao tentarmos seguir caminho, ao tentarmos levar o reprimido de volta à consciência, percebemos o surgimento de uma resistência que procura manter a repressão, no caso a amnésia. A pessoa reprimiu para evitar um sofrimento e inconscientemente ainda prefere ficar com a repressão.

O apresentador e comunicador “Chacrinha” dizia: “Eu não vim para explicar, eu vim para complicar”.

Vamos complicar, vamos fantasiar complicações, isto é, vamos tentar mostrar algumas dessas falas ou comportamentos que não me parecem adequados..

O avô negava sua fraqueza, negava os fatos que comprovavam sua incapacidade de suportar a realidade e delirava fantasias, entre a que afirmava que quem matou as meninas tinham sido os soldados russos (algumas tinham sido os soldados alemães), não ele. Pela reação do neto, podemos pensar que anteriormente afirmava que as tinha salvo.

O fato de sempre contar estórias diferentes serve para nos mostrar que eram fantasias, não verdades. Como diz Jo, nada nos garante que sua última estória seja mais verdadeira que as outras.

A mãe, aparentemente, desculpava qualquer coisa que seu pai tivesse feito com a afirmação que ele precisava sobreviver para cuidar dela. Parece que tinha medo que as estórias levassem o pai a recordar alguma coisa. Com ela está tudo bem, ela cumpre seu papel procurando recuperar o país. Tudo que ela passou de ruim – falta de luz, de água, o país destruído – foi culpa dos bombardeiros ingleses e americanos. Procura não pensar nas possíveis culpas de Bruno, seu pai, e nas culpas dos nazistas e chega a dizer ironicamente para Marta: “Desculpe pela minha amnésia voluntária”. Para mim, essa amnésia voluntária encobre a amnésia verdadeira.

Prefiro fantasiar que, para ela, o trauma foi a Alemanha ter perdido a guerra, foi seu pai, Bruno, não a ter salvo dos sofrimentos que teve. Foi descobrir que seu pai era um fraco.

O filho deveria voltar com ela para ajudar a reconstrução, senão alguém que não fosse Alemão iria tomar o lugar dele. Podemos pensar que isso significa que a Alemanha deve ser para os Alemães? Também reconstruir a Alemanha lembra Trump e seu lema: “Tomar os EEUU fortes de novo”, mas só os EEUU dos brancos.

Neste sentido, ela precisava fazer o que seu pai não tinha conseguido fazer.

Marta parece não ter reprimido o trauma da guerra, ela lembra e culpa a Alemanha, Hitler e o nazismo. Diz não aceitar terem varrido tudo para baixo do tapete. Não volta para a Alemanha, não anda em carro alemão. Achava que era obrigação sentir raiva pelas vítimas.

Entretanto, não age, não faz nada. A mãe de Jo diz que ela fez uma escolha egoísta, como uma menina egoísta: fugiu e se escondeu.

Ao recomeçar a falar Alemão. Marta diz: “Nem consigo acreditar como é bom”. “É como quebrar uma promessa. Ir contra meus princípios”.

Será que Marta odiava falar a Alemão ou não podia falar? Ela não ia vender o imóvel em Berlim porque não aceitava retornar à Alemanha, ou por não poder usufruir o dinheiro? Porque ela não tinha ou não queria eletricidade na casa?

Parece que, durante a guerra, ela não imaginava o que ocorria, não sabia dos campos de concentração; como conseguiu conviver com um Judeu durante cerca de 8 anos sem saber? Ela, a mãe dela e Alex saíram de Berlim ou fugiram de Berlim? Porque não ouvimos falar mais nada da mãe dela?

Porque ela não foi com ele visitar a mãe dele? Será que sabia que era perigoso? Porque não podia tocar o violoncelo? Ele não era de um Alemão, era de um Judeu. Como acreditar que a mãe de Alex, uma Judia de mais de setenta anos estivesse solta na Alemanha e que o filho soubesse onde ela morava?

Enfim, Marta estava odiando tudo que era Alemão ou se castigando? Não esquecer que Jo era Alemão e foi bem recebido desde o começo.

Lembremos a frase dela: “Às vezes ficamos cegos em relação a coisas que pensamos conhecer bem”.

Será que deveríamos duvidar dessas estórias, como duvidamos das estórias do avô?

Parece-me que sim. Ela mesma, ao falar da cena do ônibus com as crianças, nos mostra que sabia o que acontecia, mas tinha uma amnésia “voluntária”; ela diz que agora sabia que as crianças estavam à salvo, portanto podemos pensar que antes ela sabia que não estavam à salvo. Além disso, diz que Alex começa a tocar o violoncelo e que era a maneira dele lutar contra o que estava acontecendo do outro lado. Isso em 1944, quando ela já estava com 24 anos.

Será que ela se sente culpada de não querer ver a realidade e da morte de seu mentor, Alex? Ele lhe diz: “Já fomos tudo que precisávamos ser um para outro”. Era uma despedida? Será que Alex pensava que poderia não voltar ou ele queria não voltar? Lembremos de Bruno, o avô de Jo, que diz: “Eu deveria ter ficado na frente delas e morrido junto”.

Será que podemos acreditar que Jo pensava que Ibiza (uma pequena ilha turística) era um lugar mais propício que Berlim (uma grande capital) para um músico de vanguarda?

Estaríamos muito errados se pensássemos que ele estava fazendo o mesmo que Marta? Fugindo. Fugindo da culpa de duvidar das estórias do avô e da luta da mãe pelo bem da Alemanha?

Para mim é fácil aceitar que Jo sente, consciente ou inconscientemente, que sua mãe prefere reconstruir a Alemanha que cuidar do filho. Ela deixa uma passagem para ele: se ele quiser volta, senão quiser, não volta.

A grande diferença de idade nos faz pensar que seu amor por Marta é a busca de uma mãe boa para suprir o que lhe faltou. Ela tem 70 anos e ele tem 20 anos.

Marta identifica-se com Jo e procurando salva-lo de fazer o que ela fez, lhe repete a frase de seu mentor: “Já fomos tudo que precisávamos ser um para o outro” e acrescenta: “Daqui para frente só vamos sofrer”, “Vá viver sua vida”.

Algo mudou. Marta vai a Berlim e vende o imóvel. Jo casa e tem um filho. Casa com Clarissa, a ex-namorada de seu empresário.

Dez anos depois se reúnem na mesma casa, Jo, esposa, filho e Marta.

FIM.

Dois comentários. Primeiro: Existe um ditado que diz: “Às vezes é preciso mudar tudo para tudo continuar como estava”.

Segundo: O casamento não prova que Jo mudou; podemos pensar que ele obedeceu Marta e continuou preso à ela. Claro que pode ter mudado, mas não sabemos.

O avô e a mãe de Jo não aprecem mais. Podemos pensar que eles continuam os mesmos, levando a mesma vida.

Marta parece que comprou a casa e continua morando lá recebendo visitas de Jo e sua família. Ao falarem dos diversos pores do sol que viram nos sugerem que também Jo continua morando na mesma casa.

Tudo mudou e tudo ficou como estava.