2017 - 1º Semestre

A Garota do livro ( Estados Unidos, 2015)

Filme do dia 01 de abril de 2017

Comentários de Régis Trigo e Benedita de Lourdes Carvalho Rodrigues

Tema do Semestre: “Quando o não dito torna-se mal dito”

“Não há sol sem sombra, e é essencial conhecer a noite” (Albert Camus)

“Refletiremos sobre situações de grande sofrimento gerado pela dificuldade na identificação e expressão dos sentimentos. A doença, a hostilidade, o isolamento, o silêncio e o conflito podem ser expressões inconscientes de sentimentos que encontraram outra forma de manifestação, buscando que alguém os perceba e acolha”. Alice é uma mulher jovem, bonita e infeliz. Deseja ser escritora, mas se vê paralisada e assombrada por fantasmas de um passado permeado por vivências traumáticas e dedica-se a um trabalho frustrante como assistente editorial.A história é contada com uma alternância entre a fase adulta, no presente, e a adolescência, com foco nas passagens de uma fase para outra. O filme mostra dois momentos da vida de Alice. Aos 15 anos, quando conhece o escritor Milan, de 40, e perto dos 30, quando é requisitada para trabalhar no relançamento do livro dele, Olhos Despertos, que foi um best-seller. Entre tantos temas, como vampirismo intelectual, assédio sexual e profissional exercidos por homens, abuso de poder masculino e orfandade emocional, o filme aborda um interessante drama feminino. A Garota do Livro consegue esboçar uma personalidade feminina reprimida por um entorno masculino hostil. Vejamos qual é este entorno. Alice é filha de um importante agente literário de NY e, entre seus principais clientes está Milan, que vai deixar marcas traumáticas na garota.

Aqui, eu gostaria de fazer um parêntese. Este é o longa de estreia de Marya Cohn. O pai dela, Sam Cohn, também foi um importante agente que representou não escritores, como o pai de sua personagem, mas renomados atores, cantores e cineastas. Isso levanta a suspeita de estarmos diante de um trabalho autobiográfico – ou, pelo menos, semibiográfico.

Voltando ao filme. Já mais velha, trabalhando na editora que lançou o livro de Milan, ela é tratada por seu chefe como uma simples auxiliar, ou então como a filha do poderoso agente. Neste momento em que ela tenta se firmar como editora, insistindo para que seu chefe lesse os originais de uma autora que ela considera promissora, Alice é designada para uma tarefa que a coloca em contato com questões profundas e perturbadoras. Ela deve organizar, a contragosto, o lançamento da nova edição do famoso livro de Milan. Conflitos antigos não elaborados surgem, levando-a a viver uma grande crise que possibilita a ressignificação e superação de traumas.

No vai-e-vem da história, acompanhamos a aproximação de Milan. Com o pretexto de aconselhar a jovem aspirante a escritora em seus textos, o autor passa a frequentar a casa – mais especificamente, o quarto da garota -, e os dois vivem uma intensa experiência erótica que deixa marcas profundas. Isso sem contar que ao estimulá-la a falar sobre si e sobre sua geração, Milan se apropria da história e da vida de Alice, outro ponto controverso da relação dos dois e da honestidade dele como escritor, e que também deixará sua marca.

A impossibilidade de elaborar as experiências psicossexuais iniciais pelo excesso de estimulação e talvez pela falta de recursos emocionais geram conflitos impossíveis de serem lidados. Resultam em traumas que comprometem a qualidade de sua vida psíquica. Essas experiências são encapsuladas, ocultadas e causam um bloqueio afetivo e criativo. Lacunas emocionais se cristalizam.

Um silêncio se instala: não há a possibilidade de se falar sobre aquilo que não foi elaborado e/ou simbolizado. Como dizia Bion, “um desenvolvimento mental sadio parece depender da verdade, como o organismo vivo depende do alimento. Se a verdade falta ou é incompleta, a personalidade se deteriora”.

O filme mostra bem a forma como esses conflitos são “atuados”. Diante da impossibilidade de se conscientizar e pensar, ela vive muitas experiências sexuais sem significado afetivo/emocional. No campo da amizade, ela tem uma única amiga com a qual tem um vínculo afetivo, que se estende a seu filho e marido. É a única pessoa com quem conversa.

Ao longo de sua trajetória, Alice não era enxergada como um sujeito livre e nem era considerada como pessoa. Não havia respeito e reconhecimento por parte dos seus pais, que viviam uma eterna disputa por poder, traições e ataques pessoais.  Quando somos tratados como ‘coisa’, a nossa reação/resposta é o sentimento de ódio.

Vale lembrar que a diretora Marya Cohn estabelece paralelos entre a sua Alice e a pequena heroína das célebres aventuras escritas por Lewis Carroll. Além dos nomes e das idades próximas, as duas personagens foram marcadas por relações com homens mais velhos, que eram amigos de seus pais. Lewis Carroll e Milan Daneker eram escritores e criaram suas obras a partir das vivências com as meninas adolescentes. Carroll chegou a ser chamado de pedófilo na época.

Há uma grande diferença na maneira como as famílias das duas Alices lidaram com os fatos. O pai da Alice do filme diz: “Ele é o melhor mentor que poderia ter. Eu espero muito de você”. Ele aprova e incentiva o contato nos dois momentos, no passado e no presente.

Quando a família de Alice Lidell, que inspirou a Alice do País das Maravilhas, percebe o interesse do escritor, que a pede em casamento quando ela tinha por volta de 11 anos, provoca o afastamento radical do amigo. As folhas do diário da menina desses dias são arrancadas e desaparecem e sua mãe queima as cerca de 100 cartas que ela havia recebido de Carroll. Podemos pensar que houve o cuidado e a proteção de Alice Lidell e que a família cumpriu sua função, enquanto a Alice do filme ficou à deriva e órfã, num estado de solidão e tédio como ela mesma se apresenta inicialmente.

Teria a amiga da Alice do filme cumprido essa função de dar limites ao se afastar dela, no momento que ela se envolve com o garoto que cuida de seu filho? A amiga teria percebido mais uma “atuação”, mais uma repetição do conflito?

Alice, no presente, vive com o adolescente – agora de um outro lugar – a mesma situação que vivera com Milan. Mas não mais como vítima, e sim como quem seduz.

Na cena em que o namorado chega e ela está com o garoto, ela tenta disfarçar, mas ele vai embora. Nesse momento ela pode fazer um contato mais profundo com ela mesma. É então a partir de situações vividas que ela recupera lembranças importantes e revive os afetos que ficaram represados. Ao se conscientizar, faz conexões entre as vivências atuais e as do passado, como se houvesse imãs. Parece que Alice pode reelaborar a passagem da adolescência para a vida adulta. 

No último poema, Carroll relembra aquele passeio de barco do dia 4 de julho de 1862 pelo Tâmisa em que contou pela primeira vez a história das Aventuras de Alice no país das maravilhas para as três meninas Liddell. O poema reflete os temas do inverno e da morte, que percorrem o poema introdutório de “Através do espelho”, lembrando a Alice como ela estava antes de ir embora, com olhos secos e impacientes, pronta para correr morro abaixo e saltar o último riacho rumo à condição de mulher.

Após Alice recuperar a lembrança da cena que conta para Milan sobre o rapaz por quem estava interessada, e ele a aborda de forma mais direta dizendo que queria ser o primeiro a fazê-la gozar, ela faz contato com suas emoções e chora. Sai e anda até o amanhecer, também atravessando uma ponte. Um rito de passagem? Andar, caminhar de um lugar a outro, conectar dois pontos, atravessar rios. Isso tudo tem a representação de movimento/processo/percurso.

Cenas do presente a remetem a um passado que não passou, e que ao mesmo tempo a faz sofrer e possibilita transformações. Esse recurso cinematográfico me levou a pensar na “Associação livre de ideias”, técnica desenvolvida por Freud no período de invenção/criação do método psicanalítico.  Pede-se ao paciente que fale livremente, sem se deter em autocensura ou autorrecriminações. Assim os relatos vão possibilitando o surgimento de lembranças reprimidas e/ou recalcadas juntamente com as circunstâncias carregadas de afeto nas quais esses mesmos sintomas haviam surgido. Dessa maneira os sintomas iam desaparecendo. A primeira paciente de Freud, Anna O. descreveu o tratamento como uma “limpeza da chaminé” e como uma “cura pela fala”.

Um outro tema importante, o do assédio/ pedofilia, que não pretendo me estender aqui por esse ângulo, aponta para uma questão do desenvolvimento humano. Luiz Meyer escreve no prefácio do livro Pedofilia – Pedofilias, de Cosimo Schinaia, psicanalista e psiquiatra italiano: “… a pedofilia existe desde sempre. Tem presença nos mitos, nas fábulas, nos contos infantis, na literatura, evidenciando que a criança é um objeto de irrefutável atração sexual. O plural no título do livro ressalta as diversas formas que essa atração pode assumir e como elas são tratadas, formas essas que a obra procura compreender contextualizando as maneiras pelas quais elas emergem”. Meyer continua: “o núcleo da pedofilia encontra-se na organização da psicossexualidade infantil. A criança ao nascer é inserida num mundo de superestimulação, produtor de experiências que, agindo em combinação com fantasia e desejo, colocam um desafio constante à integridade do ego”.

Nesse complexo processo, a criança vive o desejo de se tornar grande e fazer o que os adultos fazem. A sexualidade adulta é o seu horizonte. Nesse sentido é traumática, pois existe algo maravilhoso que os adultos são capazes, mas que elas são proibidas de saber e de fazer. Na medida que a criança cresce, adquire a noção de diferenciação entre self e objeto e se dá conta da dependência em relação a esse mesmo objeto, cujo controle lhe escapa. A apreensão dessa alteridade e de si mesmo separada desse provedor possibilita a experiência de ter um corpo, seu corpo, autoerotizável em face de um outro corpo, o do adulto, cuja expressão erótica lhe escapa e que, no dizer de Freud, é conotada de algo maravilhoso e interdito. Cada indivíduo constrói sua própria trama, vivencia sentimentos de ressentimento, humilhação, idealização da sexualidade infantil, apagamento da diferença entre as gerações, etc. A pedofilia ‘atuada’ pode, assim, ser compreendida como a necessidade incessante de realizar desejos proibidos, reeditar e reconstituir momentos já vividos de triunfo e ratificar a superioridade da sexualidade infantil.

Alice diz: “Necessito do olhar de um homem me desejando. Eu sempre faço isso. Vejo o desejo no olhar de um cara e é a única coisa que me faz sentir real”. Seria uma tentativa de recuperar objetos de amor perdidos? Como é uma atuação, uma repetição, dessa forma não há como elaborar a dor da perda.

Carlos Drummond de Andrade dizia: “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”.

Em uma cena do presente, Alice diz a Milan que ele era a única pessoa que parecia que a enxergava de verdade. Isso, se remetendo à experiência de anos antes. Diz ainda que vive à sombra daquela garota até hoje e o acusa de tê-la usado. É um momento de tensão, aparentemente a primeira vez em que se permite tocar no assunto interdito, confrontar o homem que a usou, como ela disse.

No início do filme, Alice, jovem, escreve: “Era um gracioso ‘pas de deux’, uma dança de ódio. Ele a menospreza. Dois, três. Ela grita. Dois, três. Alice e Milan: um passo a dois, uma dança graciosa, na qual os bailarinos fazem passos idênticos. Isso tem um conteúdo simbólico, uma parceria inerente ao amor. Perpetrador-vítima? Os papéis são intercalados.

Num período de 15 anos, Milan escreveu sete livros – mas nenhum se tornou um ícone cultural como Olhos Despertos. Talvez ele só tenha conseguido escrever esse livro e o livro tenha alcançado tanto  sucesso porque ele quis manter uma relação – sexual, paternal, professoral? – com a garota. Também por causa da história que ela escrevia e lia para ele – e da qual ele se apropriaria, ou na qual ele se inspiraria. E, ainda, pela história que os dois iam construindo juntos, naquelas tardes, com repercussões e consequências profundas na vida dos dois.

A história que a jovem Alice ouve da boca do escritor, na primeira leitura feita no lançamento do livro, é a história dela. Por isso, ela o acusa, tantos anos depois, de tê-la usado. Aqui, vale um outro comentário sobre essa cena. Ao ouvir o trecho do livro, ela fica perplexa e busca refúgio nos corredores da livraria. A mãe vai atrás. Em busca de apoio e proteção, ela conta para a mãe. E o que acontece? Mãe, pai e escritor decidem que aquilo não passa de uma fantasia juvenil dela e querem que ela também acredite nisso.

Por muitos anos, Alice e Milan permaneceram prisioneiros daquela experiência.

Cosimo Schinaia, no livro que citei, diz: “A pedofilia, pressupondo a mágica abolição das diferenças entre as gerações e negando o valor e a existência do papel e da função dos genitores, adere totalmente a um tipo de nicho de eterna juventude para o qual o mundo das relações é um nirvana infantil em que o corpo e a beleza infantis se encontram, idealizados e absolutizados, enquanto os corpos adultos simplesmente não existem nem como máquinas desejantes nem, ao menos, como objetos de desejo”.

Eu gostaria de comentar um pouco mais sobre outro personagem que tem um papel importante no presente de Alice e sobre quem falei rapidamente lá atrás. Aquela única amiga de Alice, que questiona por que ela está sempre indo aonde não quer ir – uma compulsão à repetição? Um paradoxo? Quer e não quer ao mesmo tempo? – faz uma festa surpresa no seu aniversário e convida um amigo de sua família, um simpático rapaz, militante de causas políticas.

Na festa, Emmet entra no banheiro e encontra Alice amuada, lendo o tal livro – ela acabara de receber a tarefa de planejar o relançamento. Ele diz que está tentando se esconder. Ela replica que está fingindo que não precisa crescer. Os dois trocam algumas palavras sobre a obra. Um pouco adiante, no fim da festa, quando os dois estão organizando a bagunça deixada pelos convidados, ele pergunta se ela recicla o lixo e ela diz: “Prefiro ficar calada”. Uma alusão às suas dificuldades em reciclar, discriminar, reaproveitar os afetos desorganizados? Estaria dando-se conta das fixações do passado? Ali, os dois iniciam uma relação. O contato com o rapaz é, para ela, assustador. Entre dramas e desentendimentos, a relação continua ao mesmo tempo que Alice vai se destravando – e vai destravando a escrita, inclusive.

Alice trabalha numa editora, mas o que ela queria, mesmo, era ser escritora – desde a infância/adolescência. Frequenta aulas de escrita criativa, mas, assim como na vida, vive um bloqueio – neste caso, criativo.

Ao se ver correndo o risco de perder Emmet, ela senta e escreve. Mas não estamos diante de um momento catártico. Ela não está transformando seus sintomas em arte. Não está escrevendo o grande romance de sua vida. É só um blog, pueril como seu diário juvenil, em que aponta 100 motivos para o rapaz perdoá-la. Ela se expõe como nunca havia feito antes, nem para si mesma. Usando um tom e estilo típicos de adolescentes, reencontra sua veia criativa, se apropria de suas histórias e vivências e reconstrói sua própria identidade. Parece ter descoberto que a dor compartilhada dói menos. Que o sentido é encontrado/construído entre dois polos, dois sujeitos, dois momentos, dois espaços (o interno e o externo). Que o sofrimento pode ser transformado quando palavras são aplicadas sobre as feridas. Falar para um outro pode ser um ato de esperança.

E no final o namorado pergunta: “Você é a garota do livro, não é?” Ao que ela responde: “Não mais!”

Para finalizar, vejamos mais um ponto de contato entre o filme e a obra de Lewis Carroll.

Dedicatória na nova edição de Olhos Despertos:

Ela ainda me assombra como um fantasma incerto.

Alice se movendo por céus abertos.

Nunca vista por olhos despertos 

Trecho do poema de Lewis Carroll:

Senão que, espectral, ela segue a me obsedar,

Alice a percorrer estranhas terras

Nunca vistas por quem não sabe sonhar.