2010 - 1º Semestre

A Partida (Japão 2008)

Filme do dia 26 de junho de 2010.

Comentários de Keiko Miyasaki Teruya e Maria Lúcia de Almeida Console Simões

Tema do Semestre: Fim….. e recomeço

A Partida, filme de Yojiro Takita, Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, tem uma
alquimia especialíssima; ilumina e torna de forma poética e comovente, aquilo que muitas
vezes não conseguimos dizer com palavras.
Penso que um filme é uma maneira criativa de fornecer imagens e narrativas que
podem fazer a função de nomear aquilo que em nós estaria solto, despregado de sentido e
pedindo espaço para expressão. Muitas são as possibilidades de interpretação que este filme
suscita em nós. A que vou apresentar é um recorte que escolhi e depois gostaria de saber de
outros, que tenho certeza, cada um construiu para si.
Por isto convido-os a vir comigo para o tempo da delicadeza e respeito que existe no
encontro, quando tudo parece sinalizar para a perda, o desencontro, a necessidade de
preencher lacunas, causadoras de dor .
Quando nos deparamos com situações que nos levam a pensar sobre a finitude e o
significado da existência, sejamos nós profissionais na busca de uma melhor forma de cuidar
de quem conta conosco, sejamos nós ainda o cuidador ferido, que cuida de suas feridas junto
com a dor do outro, ou o que cuida sem saber o que faz, muitos são os olhares possíveis para
obtê-la.
Pois as feridas, muitos distantes no tempo e profundamente enraizadas na alma às
vezes doem tanto que se torna necessário medicá-las com grande delicadeza.
O luto é uma ferida que precisa de atenção para ser curada. Os rituais fornecem um
enquadramento temporal, espacial. Um holding, uma moldura que delimita a espécie diferente
de realidade que está dentro, em relação ao que está fora. Ajuda a conter o transbordamento
das emoções. Faz um encerramento. Porque as chagas não medicadas apodrecem, e
tornam-se então fonte de desconforto e morte.
Podem desta forma se transformar em um luto patológico. A pessoas sente-se
perseguida por uma hostilidade que sente contra o morto por diversos motivos: por ter
morrido, pelo abandono, por não se ter deixado reparar, por ter provocado sentimentos de
impotência, causando um empobrecimento do self, aqui tão bem retratado no dono da
agencia NK, que vive num emaranhado de culpa e de dor. Em cada ritual ele revive a morte
da esposa, tenta identificar-se com o morto e não consegue reparar a perda real. Se culpa
porque não consegue ser Deus, e precisa continuar tendo que salvar, numa reparação
maníaca que não consegue elaborar.
Percebam a dicotomia entre a vida e a morte que existe na vida do Senhor. Na casa,
em baixo o escritório, e em cima as plantas, os alimentos , a foto da mulher, enfim a vida.
Ao se perder o objeto amado a dor pode se colocar como insustentável e intolerável.
“Nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos”, Freud fiz em
1919.
No filme A Partida, apesar do tema doloroso, a morte nos lembra que é, em muito,
parte da vida. É justamente a experiência da morte que trouxe sentido à vida e ao casamento
do protagonista. O homem moderno, afirmou Freud, nega a realidade de sua morte e recorre
a expedientes imaginativos para minorar o impacto que a morte dos outros tem sobre si.
No início filme a morte é vista por Daigo como algo plenamente corporal e o trabalho
como um cuidado final com o corpo. Há uma metáfora relatada na cena quando Daigo chega
em casa transtornado, apavorado com a primeira preparação: o corpo da senhora em
decomposição e há um frango morto, aos pedaços em uma vasilha esperando para ser
preparado e ele fica nauseado, representando a repulsa diante deste encontro indesejado.
Isto fica extremamente evidente na cena de seu primeiro trabalho, quando tem que
acondicionar o corpo de uma mulher em decomposição há duas semanas.
Primeiro, a repulsa que é vivida no corpo, com o desejo de afastamento, vômito,
fraqueza, perda dos sentidos corpóreos, estado de confusão mental. São todas sensações
vividas nas entranhas, são reações viscerais, que tem um impacto profundo em nosso corpo
e mente.
A própria relação morte e sexo (instinto de morte versus instinto de vida, diria Freud),
transparece na cena em que Daigo, apavorado com a primeira preparação, chega em casa
transtornado e busca de imediato, fazer sexo com a esposa. Ao entregar-se, Daigo apenas
reitera que o sexo é vida que busca se afirmar diante do espectro de morte como
desafetivação absoluta.
A repulsa ao cadáver se torna repulsa de si mesmo, do cheiro impregnado na pele, no
cabelo, nas narinas, e por que não dizer na própria alma. Este é um processo de
identificação onde o pior do outro me remete ao meu pior. No primeiro momento não suporto
o outro, rejeito-o, mas depois tomo consciência de que o mal está em mim, não é mais o outro
que me dá repulsa, e sim o que reconheço estar em mim mesmo. Entrar em contato com as
verdades profundas do nosso inconsciente é muito amedrontador, incomoda demais, é um
grande desafio! Este é um momento psicanalítico de profunda conscientização de nossa
condição de miséria. Na seqüência (Daigo dentro do ônibus se percebendo mal-cheiroso)
mostra a percepção extremamente incomodante de estar impregnado pela fetidez. É o
momento da consciência plena de seu estado real.
Ao longo do filme vai podendo estabelecer vínculos verdadeiros que promovem o seu
crescimento e transformação.
Sua repulsa inicial, é aos poucos substituída pelo afeto e compreensão que esses
rituais oferecem às famílias desoladas.
Daigo, um violoncelista perde seu emprego em Tóquio: a orquestra em que tocava foi
dissolvida.(a musica escolhida, 9º Sinfonia de Beethoven, seu último trabalho em vida). O
filme se inicia envolvido em uma névoa fria e opaca. É final de outono, (os tombos – aonde o
arroz e plantado e colhido estão vazios). Sensação estranha de Vazio, estado emocional que
ele chega em Yamagata. Dois meses depois de sua volta percebe o quão inexpressiva foi sua
vida até aquele momento. Volta para casa que sua mãe deixou de herança. Volta para o
passado. Espaço aonde cada significado para si e para o mundo é construído, e ao mesmo
tempo espaço onde as lembranças estão vivas em cada canto: a mãe não se desfaz dos
discos do pai, seu violoncelo da infância dado pelo pai, a pedra carta embrulhada em um
partitura. Daigo tinha apenas 6 anos quando o pai foi embora. Não há o conforto da
lembrança e da espera; o objeto do amor desapareceu e naufragou no nada. A presença do
outro é desejada como “presença física”, e a materialidade da relação, a única garantia da
realidade do vínculo. ”Pai desnaturado ”diz ele. Se o outro não existe materialmente, o vínculo
se quebra e cai no vazio. Nas lembranças de Daigo seu pai não tem rosto. O retorno à casa
da mãe tem uma representação de regressão. É preciso regredir, voltar ao útero, rever este
período de obstrução dos significados. É preciso ceder espaço para atualizar memórias, e
voltar para a casa da mãe é uma forma interessante de materializar esse processo. Voltou
também para sua cidade de origem, e neste retorno entra em contato com a origem cultural
de seu povo, uma tradição já quase perdida. Ele próprio não esteve presente nos ritos de
funeral da mãe, e tampouco conhecia esta tradição, e muito menos o significado rico em
construção de sentidos para a partida do morto e também para a continuidade da vida dos
entes queridos que ficaram.
Essa realidade foi mostrada no filme em vários momentos, e foi esta visão reveladora
do sentido da vida e da morte desveladas neste rito de passagem que fez com que ele
desejasse eleger esta como a ‘profissão de sua vida’.
Mais do que um decreto da natureza. Despe-se a roupa terrena… Segredos de família,
grandes amores, brigas…. As cenas surgem com uma espécie de coroamento, de epílogo
para a biografias individuais que tiveram uma história e importância para seus descendentes.
Seja como um adeus triste e lamentador, seja como momento de aceitação, ou momento de
despedida feliz por terem vivido juntos e felizes. A historia de Tomeo, o filho que foi concebido
e desejado pela mãe como uma mulher desde a fecundação. A avó com suas netas se
despedem com alegria e gratidão.A maquiagem que restaura na mulher amada um pouco de
sua beleza, permitindo que o viúvo possa reconciliar-se com o que perdeu. O marido que
recebe beijos afetuosos de todos e como não mencionar a historia da dona da casa de
banhos, local de purificação e limpeza das dores do corpo mas também da alma.
Deixa-se desta forma uma mensagem de continuidade. Na Grécia antiga a mais
dolorosa experiência para um ser humano era o esquecimento. O herói era aquele que
conquistava a Bela Morte, uma morte que fala de sua gloria, cujo fulgor se prolonga,
tornando-se memória imortal. O que seria então a morte de fato? Seria o esquecimento, o
silêncio, a obscura indignidade. Ultrapassa-se a morte acolhendo-a em vez de sofrê-la.
Budistas, cristãos, islâmicos, hindus, não tem problema! Em cada casa o drama é
diferente e isso passa a enriquecer sua compreensão de vida.
Mika sua mulher, não fazia idéia do seu trabalho e sente-se muito feliz. Entretanto, ao
descobrir seu verdadeiro trabalho (vídeo de propaganda), volta para a casa de seus pais,
assim como seu amigo de infância, se afasta dele pois, no Japão esta profissão é considera
impura. Indignado com a atitude amigos, continua fazendo o que passou a gostar, assim
como a tocar seu violoncelo infantil. Daigo, agora sozinho, tem na figura de seu chefe o
substituto do pai que gostaria de ter tido. Complacência e firmeza o ajudam a abandonar os
laços infantis e enveredar-se pelo mundo adulto. Daigo não desiste. Descobre sabores,
reforça vínculos, procura sentido para sua vida. A carne inicialmente crua, aos pedaços, se
transforma em cozida, mas difícil de comer, e depois é deliciosamente saboreada. A morte
deixa de ser um coisa apenas material, e seu trabalho é compreendido como uma função.
Deixa de ser um meio de vida e passa a ser a própria : passagem do não-ser para a
existência. Caminha pelos campos, em busca de respostas para seus questionamentos. O
filme registra o tempo transcorrendo lento e implacável. “Não apresse o rio, ele corre
sozinho”.
Certo dia, ao chegar em casa, depara-se com Mika. Implora para que ele deixe esse
emprego, anuncia sua gravidez. A expressão Daigo é ao mesmo tempo de alegria e dor.
Providencialmente o telefone toca e ele tem de realizar o funeral Senhora da casa de banhos,
a quem amou desde a infância.
Sua mulher o acompanha e, aos poucos, vai se deslumbrando com a maestria, técnica
e amor demonstrados durante o ritual. Aceitando-o passam a viver, harmoniosamente, a
espera do nascimento do filho.
Em seus passeios junto às pedras do rio, ele escolhe uma particularmente lisa e
branca, e dá para Mika. Daigo então conta que os (“antigos antes da invenção da escrita
procuravam uma pedra que expressasse seus sentimentos e davam aos seus entes queridos.
Quem recebia a pedra podia ler os sentimentos do outro pelo peso e pela textura. Uma pedra
lisa era sinal de um coração sereno, uma pedra áspera de que a pessoa estava em
dificuldades.”) os sentimentos são significados e passados por pedras que representam a
mensagem afetiva.
Ao longo filme Mika, na verdade pouco se envolve com as questionamentos e
dificuldades de Daigo, não queria saber a verdade e quando descobre o abandona e volta
para casa dos pais como filha. Ao se vincular, pode deixar de ser filha para ser mãe e a
mulher de Daigo, compartilhando com ele a dor pela perda e o encontro com o pai.
Recebe um telegrama para que retire o corpo do pai, que havia morrido. Daigo recusase
a resgatá-lo. Jamais o reconheceria e não o via há mais de trinta anos. Tinha de ser
adulto, mas não tinha o pai dentro, (o pai interno) que lhe desse sustentação. Cedendo aos
pedidos de Mika e da secretaria seguem para uma cidade portuária, onde seu pai havia sido
pescador, por todos esses anos. Com a chegada do serviço funerário Daigo, não admite que
o corpo seja colocado no caixão sem a cerimônia de purificação. Ao lavar as mãos daquele
homem que não consegue reconhecer como seu pai, recompõe a imagem dele em sua
memoria, preenchendo lacunas de afetividade que o atormentavam no plano inconsciente..
Para sua surpresa, vê a pequena pedra-carta que havia trocado há tantos anos com ele, e
descobre que certamente nunca esqueceu seu filho.
Com delicadeza e respeito vai lavando aquele rosto, lembrando-se de passagens de
quando estavam juntos e felizes recuperando partes perdidas de si e, finalmente, consegue
encontrar a imagem verdadeira de sua face, que até aquele momento não conseguia ver.
Nesse momento consegue reparar e se aliviar do ódio e culpa que sentiu a vida toda.
Consegue reparar o pai que perdeu na fantasia . Encontra o pai vivo dentro de si. Ao se
defrontar com seu passado resgata sua memória afetiva. A morte então se apresenta como
uma presença.
A afeição esteve presente na sua infância, em um ambiente acolhedor e facilitador de
significados afetivos e existenciais profundos que ele pode re-viver.
Penso que o se descobre aí é que nossa imaginação pode ser nosso cárcere ou nossa
expansão. É sempre bom duvidar de nossas fantasias e cogitar que a vida corre muito além
dos limites que desejamos impor para ela.
O amor que parecia não existir na verdade, sempre esteve ali silencioso. Entrega a
pedra para Mika e seu filho. E gora, como casal, prontos para se tornarem pais reais do bebe
que vai nascer. O filme mostra que naquele momento, o Pai instituído na cultura numa
unidade integradora: juntos o Avô, o Pai e o filho que vai nascer.
Belíssima aquela cena dos salmões, quando ele pergunta “para que tanto esforço para
depois morrer”? No inicio do filme a lula volta ao mar, seu lugar, para morrer. Talvez eles
queiram voltar para onde nasceram…” E me lembro de um filosofo que disse que “a grandeza
do homem reside, justamente, em buscar o bem viver apesar de saber que vai morrer” …
O filme proporciona ao personagem o mergulho nos reais significados da morte e vai
oferecendo ao expectador uma sensação semelhante, tudo com muita sutileza e
sensibilidade, para que se tenha tempo de digerir o ocorrido. Não podemos impedir as
partidas mas podemos vê-la de outra forma, dar a ela um outro sentido.
Dar um sentido para dor não é consolar, mas se afinar com a dor do outro e tentar
vibrar com ela, esperar que o tempo e as palavras se gastem. Construir um lugar na
transferência onde essa dor possa ser protestada, lamentada e gasta com lágrimas e
palavras. Como um músico dar voz, tirar do instrumento o melhor som, com a intimidade
retratada no filme na figura como o violoncelo sendo abraçado pelo músico. (No início um
instrumento que não era seu, pesado demais para ser carregado, um alívio se livrar dele).
Fazer ressoar cordas conhecidas, podendo ser abrigado dentro, tornando possível ser vivido
e expresso o que não tinha sido ainda. Espaço criado por Daigo que vai se ampliando, pode
voar, sonhar e por fim se apropriar de seu cello (mundo interno), tocando a música de seu
coração.
Penso o filme como um metáfora do processo analítico, que se inicia com uma busca e
que só ao longo do tempo ao entrar em contato com suas dores reais podem ir se
transformando. As vezes feridas tão enraizadas e doloridas demais para serem tocadas.
E o que fazemos nós analistas senão segurar com “mãos de algodão” quando a alma
está em ferida, e tudo parece sinalizar para a perda, o desencontro, a necessidade de
preencher lacunas?
Desejo a mim e a vocês a coragem necessária para nos lançarmos a cada dia
nesta busca!