2012 - 2º Semestre

Banhos (China 1999)

Filme do dia 15 de setembro de 2012.

Comentários de Nívio Mota  e Gley Marques da Silva

Tema do Semestre: Os filmes da nossa vida

Gley Marques da Silva

O filme “Banhos” do chinês Zhang Yang realizado em 1999, retrata o contraste entre a
tradição e o novo que encaminha para uma situação de conflito entre o jovem e moderno Da
Ming e seu pai o Mestre Liu, até desembocar numa crise familiar.
O contraste entre tradição e o novo será debatido em outubro próximo, no 29°
Congresso Latino-americano de Psicanálise que acontecerá este ano em SP e tem como
tema “Invenção – Tradição”. Aqui vou me valer em certos momentos das ideias de alguns
trabalhos pré-publicados para esse congresso e que podem ser acessados através do site
www.fepal2012.com/O Filme
O retorno de um bem sucedido Da Ming vindo da moderna Shenzen para o convívio
familiar em sua cidade natal, nos mostra um jovem que poderia ser identificado como um
“yuppie” uma derivação da sigla “YUP”, expressão inglesa que significa “Young Urban
Professional” i.e., Jovem Profissional Urbano. Trata-se de um termo que surge entre as
décadas de 80/90 para designar jovens onde o sucesso profissional e o consumo de bens
materiais, principalmente novidades tecnológicas, ganharam importância primordial na
sociedade, inicialmente americana, mas se estendendo em seguida a outros continentes.
Já no início do filme vemos Da Ming quase sempre com muita pressa, num estilo de vida
agitado, que o faz lançar mão de serviços ao estilo “fast”, como um moderno e prático
chuveiro público, que na sequência do filme é comparado a um lava-rápido de carros,
contrastando violentamente com a atividade que expressa valores do passado, exercida por
seu pai, e que ele rejeita.
Mestre Liu administra uma casa de banhos ajudado por Er Ming, seu filho mais novo,
portador de necessidades especiais. Ali vemos a tradição da cultura chinesa nas técnicas
milenares de seus banhos e massagens num ritmo tranquilo, a possibilidade de experiências
compartilhadas, a convivência de diferentes gerações e interesses, num mesmo espaço para
conversas, leituras, jogos e música.
O filme já nos insere nesses ritmos tão diferentes entre pai e filho, através do fundo
musical apresentado na casa de banhos, contrastando com a música tecno, quando Da Ming
usa o chuveiro público.
A reflexão que proponho não passa por uma análise do que é certo ou errado, melhor ou
pior: tentarei destacar o movimento contraste conflito crise – numa possibilidade de
impasse ou solução entre os envolvidos.
Da Ming, à semelhança de muitos dos yuppies, parece ser regido pelo slogan “time is
money”. Frequentemente são jovens que buscam grandes centros urbanos onde as
possibilidades de ascenção profissional e social são maiores, levando-os a um afastamento
de sua família e raízes.
Da Ming retorna, pois entende, a partir de uma carta/desenho que lhe foi enviada pelo
irmão mais novo, que o pai falecera. O contraste novamente se faz presente: Er Ming lança
mão de uma carta, enquanto vemos Da Ming se comunicando o tempo todo com sua mulher,
via celular.
O que o jovem globalizado Da Ming encontra nessa volta à casa paterna é a antítese do
que escolheu para sua vida e se mantem afastado das atividades de seu pai e irmão. Vivendo
numa sociedade mais focada no individual, Da Ming observa com estranhamento, o clima de
harmonia e prazer que reina entre os dois, numa vida simples, além do grupo de homens
frequentadores da casa de banhos.
Aproveitam o tempo, envolvidos nas mais prosaicas e inusitadas atividades, desde a luta
de grilos1
, combate tipicamente chinês cuja origem também é milenar, até um cantor –
Miaozhuang- de uma música antiga e folclórica da cultura italiana, num arremedo de
Pavarotti.
Eles não exercem apenas atividades lúdicas; também há confidências e pedidos de
ajuda para conflitos mais íntimos, contrastando com uma solitária condição de Da Ming que
sequer revelara, à própria esposa, a verdadeira situação de sua família de origem.
O estranhamento de Da Ming me remeteu a Freud e seu artigo intitulado “O Estranho”
(1919).
Freud inicia esse trabalho relacionando estranho ao que é assustador portanto, capaz de
provocar medo e continua… “algo que é secretamente familiar, que foi submetido à repressão
e depois voltou”.
Portanto, para Freud, o desconforto causado pelo estranho deve-se a algo que na
verdade não é estranho à mente, trata-se de algo velho conhecido, mas que deveria ter
permanecido oculto.

1
Zhang Zheng, 33 a, que trabalha na área financeira, oferece sua própria teoria sobre a razão pela qual homens
crescidos ficam tão apaixonados pelos insetos. “Está na nossa natureza ser agressivo, mas lutar é ilegal. Assim,
projetamos nossas emoções nos grilos e, quando eles ganham, ficamos orgulhosos, e talvez nos tornemos um
pouco menos agressivos.” (comentário retirado da internet)
Se partirmos da idéia freudiana de um conteúdo reprimido, quais seriam as motivações
de Da Ming? Que ideias ou afetos desagradáveis ou inoportunos ele estaria tentando afastar
da sua consciência? Culpa por ter deixado a família? Necessidade para tolerar sobreviver
num ambiente novo tão diverso? O modelo da figura paterna com quem se identifica mas,
teme que possa nele se revelar?
Podemos observar na atualidade, certa tendência a violentas rupturas com as
experiências transmitidas pelos mais velhos, como se todas precisassem ser descartadas.
Não se trata de manter a ideia saudosista de que tudo do passado é melhor mas, como
afirma Mariano Horenstein, psicanalista argentino2
…“deveríamos poder discriminar o que vale
a pena preservar, a incandescência que devemos manter acesa, de geração em geração, de
uma pureza constitutiva da nossa identidade”…
O filme nos mostra o conflito que vai se estabelecendo entre pai e filho, o choque entre
as diferenças de costumes, interesses e preocupações. Há entre eles um idioma não
compreensível que os transforma, um ao outro, em pessoas desconcertantes.
Mestre Liu observa o filho mais velho com tristeza sentindo que há entre eles, distâncias
que vão muito além do espaço geográfico, mas tenta uma aproximação através da comida, do
convite ao banho de imersão. Lida com serenidade às frustrações e adversidades de sua
vida, mostra-se firme nas suas convicções, tem prazer na atividade que exerce e orgulho pelo
trabalho que oferece aos seus clientes, consegue desfrutar e participar com alegria das
conquistas de seu filho mais jovem, apesar das limitações deste e o auxilia nas conquistas
que lhe são possíveis.
“Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade” diz Freud em
1926, numa entrevista, quando indagado sobre o seu envelhecimento.
3
Em certo momento do filme já reconciliados, Mestre Liu conversa com Da Ming
comparando as casas velhas por eles observadas a pessoas velhas e diz: “as casas podem
até ser consertadas, como as pessoas, mas continuarão sendo velhas, porém podem ser
especiais”. Lida bem com a realidade, como ela se impõe.
A crise

2
“O vaso e as sementes de girassol – Notas para uma tradição que virá”… Trabalho pré-publicado in
www.fepal2012.com/
3 Entrevista concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck e publicada na imprensa americana
naquela época.
Eclode de forma abrupta com o desaparecimento de Er Ming quando sai em companhia
de Da Ming. Nesse momento de desespero, vemos Mestre Liu abrir a Da Ming o que ele
guardara há tanto tempo: não sentir nem a ele ou Er Ming como pessoas importantes na vida
de Da Ming, que as aspirações profissionais e financeiras foram colocadas acima de tudo,
que o lugar dele não é ali e que carrega o sentimento de que Da Ming é um filho que ele
perdeu.
Certa vez li uma pequena história que conta sobre um homem muito religioso que ao
sentir-se diante de Deus pediu que lhe indicasse o caminho dos céus, sendo logo atendido. Já
prosseguindo, por curiosidade, perguntou qual seria o caminho do inferno e para sua
surpresa, ouviu: _ “O mesmo”.
A partir dessa história, podemos pensar em crise como um caminho para algo
enriquecedor ou para o infortúnio dependendo de como opere o funcionamento mental das
pessoas nela envolvidas.
Er Ming volta para casa por suas próprias pernas e Mestre Liu ouve de um cliente as
sábias palavras – “pelo menos agora você já sabe que ele consegue voltar”.
A possibilidade de elaborar, satisfatoriamente, os conflitos decorrentes da relação
familiar, começa a se esboçar quando Da Ming resolve ajudar o pai – curiosamente – debaixo
de um forte temporal que desaba sobre ambos. Unem forças, se aproximam, conseguem
experimentar algo em comum.
Daí em diante, vemos um Da Ming que se apropria cada vez mais das atividades junto à
família, que parece não mais temer essa aproximação e que consegue usufruir com prazer,
dessa nova circunstância.
Referindo-se às perdas causadas pela guerra, Freud (1916)
4
escreve: “… e o que a
guerra destruiu poderá ser reconstruído em um terreno mais firme e de uma nova forma ainda
mais duradoura que antes” – que me parece também poder se aplicar às situações de crise.
Mestre Liu morre e Da Ming tem que se haver com novos desafios: o cuidado do irmão,
o destino da casa de banhos, o esclarecimento, com sua mulher, sobre a nova circunstância
em que se encontra, a desapropriação e demolição do bairro em que vivem e a elaboração de
seus lutos.
Freud em seu trabalho Luto e Melancolia (1917) ao se referir ao processo da pessoa
enlutada descreve que “ o luto compele o ego (do indivíduo) a desistir do objeto (perdido)
declarando-o morto e oferecendo ao ego o incentivo de continuar a viver” .

4
“Sobre a transitoriedade”.
E é o que vemos ao final do filme: os diferentes personagens tendo que se confrontar
com despedidas, perdas e transformações.
Para finalizar: Er Ming precisaria de um capítulo à parte, somente dele: é das figuras
mais doces, expressivas e sensíveis.
Rapidamente destacarei apenas dois aspectos: a relação de Er Ming com seu pai, onde os
cuidados paternos propiciam a Er Ming um ambiente onde seus ritmos e possibilidades são
respeitados e as adaptações às suas condições são favoráveis ao seu desenvolvimento
cognitivo e emocional. Vejo como expressão daquilo que Winnicott, psicanalista inglês chama
de um “ambiente de holding” 5
, que busca atender às necessidades da criança mas exige
um manejo em determinadas experiências da dupla, com uma atenção e atitude particulares
às necessidades da pessoa mais frágil. Mestre Liu não superprotege ou sufoca Er Ming, mas
não se omite na sustentação que ele necessita.
E a identificação empática de Er Ming com Miaozhuang, o cantor de Sole Mio.
Para Freud6
, a empatia consiste num processo de se colocar na posição do outro, permitindo
compreender esse outro ao perceber nele uma subjetividade ou essência que se assemelha a
si mesmo, sendo um processo que pode ocorrer tanto consciente como inconscientemente.
Entre Er Ming e Miaozhuang penso que ocorre o encontro entre duas mentes mais primitivas,
entre duas pessoas que provavelmente vivem apuros e constrangimentos semelhantes,
favorecendo uma identificação empática que pode levar a “conseguir perceber comunicações
afetivas não abrangidas pela palavra”. (Ribeiro, O.M., 2010)