2015 - 1º Semestre

Bem vindo a vida – EUA 2012

Filme do dia 21 de março de 2015.

Comentários de Sara Bittante da Silva Albino  e  Humberto da Silva Menezes Junior

Tema do Semestre: Estranhos Segredos

Brevíssimas considerações sobre realidade e ficção

Humberto da Silva Menezes Junior

Em resenha do livro “Le Roman Familiale de Freud”, escrito pela analista Grabrielle Rubin, da Sociedade Psicanalítica de Paris, e publicado pela Editora Payot (Paris) em 2002, resenha esta feita para o Psychiatry on line Brasil (vol. 20 – fevereiro de 2015), o psicanalista e escritor Sérgio Telles, do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, nos chama a atenção para uma interessante e importante questão de clínica psicanalítica levantada por Rubin, a ser abordada quando se examina o tema da novela familiar, que pode ser mais ampla e profundamente examinado, hoje em dia, pela Psicanálise da Família e Casal: trata-se da distinção entre “romance  familiar” e “segredo familiar.

Na esteira de Abraham e Torok, a autora assinala que o romance familiar “é uma fantasia inconsciente, faz parte do mundo interno da criança (“fantasme” seg. Abraham); já o segredo familiar não é uma fantasia, é da ordem da realidade objetiva (“fantôme”, ainda seg. Abraham), ou seja, é um acontecimento histórico da família, mantido fora do conhecimento de alguns de seus membros, com inegáveis efeitos no psiquismo daqueles que o desconhecem.

Desde que interligados, a existência do segredo cria uma espécie de vácuo que a criança tende a preencher com a construção de uma fantasia, que se inscreve no âmbito do romance familiar. Telles nos lembra o particular cuidado que é necessário ter com essas questões, na medida em que pode-se prevenir graves equívocos e distorções em não se enfatizando demasiada e exclusivamente o mundo interno do paciente.

Creio que todos esses elementos estão vivamente presentes no filme que acabamos de assistir. Obrigado por Lillian a escolher entre Sam e Frankie, ou, mais certamente entre ela e a mãe de Frankie (“não existe sofrimento, ou decepção maior, do que você constatar que seu amor não basta…”), Jerry engenhosamente constrói uma situação de proximidade entre seus filhos, a ser desvelada no futuro, quando ambos já estejam em condições de suportar a verdade, não sem dor e sofrimento, porque componentes inevitáveis do contato com a verdade, a qual pode, inclusive, sem modulação da compaixão, resvalar para a crueldade.

A partir daí, podem entrar em cena aspectos continentes da personalidade de Jerry, até então mantidos escotomizados, e os filhos podem percebê-lo de forma mais inteira, alguém que, enquanto um ser humano, como disse Chesterton pela boca do Pe. Brown, ”carrega consigo anjos e demônios”. Não nos esqueçamos de que Jerry poderia não aceitar a imposição de Lillian, mas ao que parece, estava, ele próprio premido por suas culpas e por seus fantasmas. O segredo só é revelado após sua morte….

Os dois personagens que parecem mais em contato com a realidade são Hannah, que começa a desvendar, para Sam, seus aspectos manipuladores e sua tentativa de fugir ao contato com a dor, via mentiras pueris, para as quais busca, inclusive, a cumplicidade da namorada, e….., que se recusa a exercer o papel de guardião de segredos.  Ambos buscam afirmar o imperativo da palavra, da conversa, mostrando que isso é menos traumático do que a evitação e a fuga dos conflitos.

Quando o segredo se desfaz, os sentimentos são postos nos seus devidos lugares, clareando os fatos e possibilitando reaproximações afetivas e retomada de contato realista.