2009 - 2º Semestre

Cinema Paradiso (França, Itália 1989)

Filme do dia 19 de setembro de 2009.

Comentários de Neusa Abelin e Gley Marques da Silva

Tema do Semestre: Transformações

Gley Marques da Silva

Ao final da década de 80 somos agraciados com este filme lírico e cativante que propicia
ao espectador um universo de emoções. Difícil não se sentir inundado de fortes afetos ao
assistir Cinema Paradiso – um verdadeiro “poema da vida” como o define seu produtor Franco
Cristaldi. Para ele “todos se identificam com o filme – de italianos a americanos – porque se
trata da identificação com a nossa natureza humana”.
Blasco Giurato, diretor de fotografia de Cinema Paradiso, diz que a força do filme está
na sua pureza e que se trata de um filme fácil porque faz brotar naturalmente, emoções já
vividas por nós.
Giuseppe Tornatore, seu diretor, revela que a origem do filme surge de um episódio
verdadeiro: natural de Bagheria, pequena cidade siciliana, tinha no padre Butitta da igreja
local um “purificador de filmes” como ele mesmo diz, que antes de exibi-los no cinema
paroquial, submetia-os a cortes. Um coroinha, apaixonado por cinema e que trabalhava numa
pequena mercearia, tinha no fundo desta, velhos projetores e várias das cenas de beijo,
cortadas pelo padre Butitta.
Nesse sentido, Tornatore define Cinema Paradiso como um filme autobiográfico, pois
além disso, muito do que ele mesmo viu e viveu nas salas de cinema, nas histórias das salas
de cinema, ele reproduziu no filme. Para ele, o personagem Alfredo tem importância na vida
de Totó, como em sua própria vida teve seu avô paterno além de personificar também o
próprio cinema.
Rubens Edwald Filho, crítico de cinema, avalia que Cinema Paradiso é não somente um
tributo ao final das salas de cinema ameaçadas pela chegada da TV, mas também um tributo
ao final de um tipo de filme italiano das décadas de 50/60 que representa em sua opinião, os
melhores filmes em conteúdo e técnica, lembrando Fellini e outros cineastas famosos.
Para muitos, há no cinema de Tornatore, algo dos últimos filmes de Fellini: “Cinema
Paradiso tem grande semelhança com “Amarcord”, o clássico do grande diretor italiano, pois
lida com a mesma nostalgia da infância, celebra tipos humanos pitorescos que predominam
nas pequenas cidades mediterrâneas da época e que ambas as obras têm como cenário.”
Se nós pensarmos na expressão “Amarcord” esta significa “io me ricordo” no dialeto de
uma pequena região da Itália. Em Cinema Paradiso, Salvatore recorda sua vida em
Giancaldo. Fellini reconhecia que em Amarcord havia semelhanças de sua vida em Rimini,
sua cidade natal, com seus habitantes bizarros; o mesmo ocorre com Tornatore que também
vai buscar inspiração em Bagheria, onde nasceu. Amarcord é tido como uma celebração da
memória afetiva de um garoto (Tita), tal qual em Cinema Paradiso o personagem Totó.
Cinema Paradiso é uma viagem na história dos filmes, das projeções, das salas de
cinema de uma cidadezinha da Itália mas, que poderia ser aqui. Muitos de nós, santistas,
lembramos das várias salas que a cidade dispunha. Dos clássicos do cinema, algumas salas
passaram a apresentar filmes pornôs – como também sugere uma cena em que Salvattore
percorre o prédio abandonado um pouco antes da demolição – em seguida prédios
abandonados, posteriormente demolidos ou transformados em prédios comerciais.
Para psicanalistas e analisandos, a pequena sala de projeção também pode ser vista
como uma metáfora de uma sala de análise, onde muitas cenas vão sendo projetadas,
despertando diferentes e fortes afetos.
É um filme que fala de paixão, luto, criatividade, encontros reveladores, capacidade de
suportar e transformar as adversidades em superação, dentre outros temas tão expressivos e
fundamentais a todos nós e à Psicanálise em particular.
O filme de Tornatore mostra em flashback, o universo de Salvattore de Vitto – o menino
Totó – desde sua infância até a idade adulta, quando após 30 anos residindo em Roma,
retorna pela primeira vez a Giancaldo sua cidade natal, pequena província no interior da
Sicília, de onde partiu ainda adolescente.
O retorno é motivado por um telefonema de sua mãe, que lhe comunica o falecimento de
Alfredo. A notícia o leva a repassar toda a sua história, desde a infância.
Totó é um garoto inquieto e inteligente que vive somente com a mãe e a irmã mais nova,
pois o pai se encontra na guerra. Descobre no Cinema Paradiso, única diversão da pequena
cidade, um espaço de imagens que alimenta suas fantasias e o fascina.
Assim, o mundo do pequeno Totó se organiza em torno de duas experiências: um
ambiente familiar inóspito, marcado pela presença de uma mãe por vezes enfurecida, que luta
contra a pobreza e a dor da ausência do marido – e um ambiente lúdico e mágico dos filmes
do Cinema Paradiso, que o introduz na riqueza do mundo onírico.
Em certo momento vemos o pequeno Totó olhando uma foto dos pais e perguntando à
mãe sobre a ausência do pai, que mesmo com o final da guerra, ainda não retornara. A mãe
afirma que ele estaria a caminho, mas deixa passar sua angústia fruto da suspeita de que ele
tenha morrido. É Totó que num outro momento de sofrimento escancara a dolorosa verdade:
“ – Ele não volta mais! Eu já entendi…Morreu”… e afirma isto, frente a tentativa da mãe
de negar não só a ele mas dela mesma, a triste realidade.
Com a morte do pai real, Totó aproxima-se cada vez mais de Alfredo, o projetista do
cinema, que vai, aos poucos se rendendo ao esperto garoto e desempenhando a função
paterna, creio que indo de encontro à figura de um pai já presente no mundo mental do
menino.
Com Alfredo, Totó é introduzido num mundo de paixão e criatividade, nos mistérios da
vida, de experiências emocionais inéditas geradas a partir da sétima arte. Tal qual um pai,
Alfredo vai abrindo a Totó outros horizontes, não mais restritos à convivência limitadora com a
figura materna ou da pequena província onde vivem.
Para Winnicott, psicanalista inglês e um dos grandes pensadores a respeito da influência
do ambiente sobre o psiquismo infantil “o pai abre um mundo novo para a criança… e se à
mãe pertence a estabilidade da casa, ao pai pertence então a vivacidade das ruas”
1
, i.e., a
apresentação do mundo além das fronteiras da família.
Penso que Alfredo e os filmes do Cinema Paradiso passam a significar para Totó a
figura paterna e uma das suas principais funções : apresentar ao filho um universo mais
amplo, que não se resume à vivência fusional com a mãe, introduzindo a criança num
processo contínuo de desenvolvimento e descobertas, embora com maiores riscos.
Ao longo do filme, após a perda do pai, Totó é submetido a outros lutos importantes: a
perda da visão de seu grande amigo Alfredo, que com os filmes, descortinava através de seus
olhos, metáforas e novos conhecimentos; a perda de Elena, seu grande amor da
adolescência que desaparece sem deixar pistas, a perda do posto de projetista do Cinema
Paradiso quando vai para o exército e logo a seguir, a perda de todos os seus vínculos
afetivos quando, atendendo ao pedido de Alfredo, deixa Giancaldo e parte para Roma.
Freud (1917) em seu trabalho Luto e Melancolia ao se referir ao processo da pessoa
enlutada descreve que “ o luto compele o ego (do indivíduo) a desistir do objeto (perdido)
declarando-o morto e oferecendo ao ego o incentivo de continuar a viver” . Assim a libido é
retirada do objeto perdido e fica livre para novos investimentos, favorecendo a elaboração do
processo de luto.
No filme, não acompanhamos os possíveis percalços de Totó, jovem e sozinho, ao
chegar a Roma. Já vemos um homem maduro, cineasta bem sucedido, porém afetivamente
solitário, fazendo supor que novamente o cinema e tudo o que este possa ter representado –

1
Limite e Espaço – Madeleine Davis e David Wallbridge
principalmente a figura de Alfredo – tenha sido escolhido e investido como objeto amoroso por
Salvattore, dando espaço para a criação de seus filmes.
Alfredo e o Cinema Paradiso embalaram seus sonhos infantis e adolescentes,
apresentaram-lhe a vida além das restritas fronteiras de Giancaldo, propiciaram-lhe a
descoberta do amor, da amizade, da sexualidade, tornaram-se objetos fundantes de sua
personalidade e transformadores para sobreviver às adversidades.
Boris Cyrulnik, psicanalista, neuropsquiatra e etólogo desenvolveu a teoria da resiliência
onde postula a capacidade dos seres humanos de superar as adversidades da vida.
O termo resiliência foi retirado da física e se refere à propriedade que certas matérias
têm de, depois de sofrer mudança de forma, voltar ao seu estado original. Em sentido
figurado, seria a capacidade de se recobrar ou se adaptar à má sorte ou às mudanças
(Houaiss, 2000)2
ou usando um dito popular: “ O que não mata engorda” i.e., o que não
destrói, fortalece.
Trata-se de um processo evolutivo mas, segundo o próprio autor, depende de um meio
favorecedor, “quando um acaso significativo permite encontrar uma pessoa – e basta uma –
para que a vida volte”. Cyrulnik continua: (As crianças) “Podem assumir comportamentos
surpreendentes e riscos exagerados mas, isto implica na necessidade de reaprender a viver
uma outra vida”3
Superar e sobreviver às adversidades, desenvolver comportamentos adequados e
adaptativos, utilizar das situações como uma oportunidade para melhorar sem perder a
esperança e o desenvolvimento da competência social, acadêmica ou vocacional são
algumas da características apontadas por psicanalistas que estudam essa condição.
Totó poderia ser visto como uma criança dotada de tal capacidade?
É ele que insiste bravamente nos inícios do relacionamento com Alfredo quando este o
repele com frequência. Lança mão, persistentemente, de todos os meios que dispõe para
manter-se ligado àquilo que encontrou nos filmes e que o vitaliza – a possibilidade de sonhar –
e não hesita em arriscar a própria vida para salvar o amigo, do incêndio.
As expressões encantadas de Totó, seu entusiasmo e amor ao cinema, as hábeis
artimanhas usadas por ele nas tentativas de aproximação, vão aos poucos conquistando
Alfredo que em certo momento, não vacila em ajudá-lo de forma cúmplice, quando a mãe do
menino descobre que o dinheiro do leite da família teve como destino, a sessão de cinema.

2 Dicionário eletrônico
3 Os patinhos feios – Cyrulnik, B.
Fica selada, naquele instante, uma relação afetiva entre ambos que será comprometida
mais adiante pela proibição da mãe de Totó de que ele frequentasse o Cinema Paradiso,
depois que sua irmã provoca um incêndio, com os pedaços de filme que Totó levara para
casa, sendo ambos – Totó e Alfredo, responsabilizados por ela pelo incidente.
Mas o destino coloca diante de Totó uma oportunidade que ele outra vez não
desperdiça, quando nos bancos escolares barganha com Alfredo a “cola” que este precisa
para ser aprovado nos exames, em troca de que ele – Totó – volte a frequentar a cabine de
projeção.
Totó não hesita em “chantagear” Alfredo para conquistar algo que agora tornou-se não
apenas uma diversão, mas uma necessidade: o alimento para seu mundo psíquico. Alfredo
cede e a amizade que entre os dois se estreita cada vez mais, atravessará momentos de
turbulência e dor, mantendo-os unidos agora não mais apenas pelo amor ao cinema, mas
pela amizade e pelo que cada um tem de significado na vida do outro.
Após o incêndio que se inicia na cabine de projeção, Alfredo é salvo pelo menino mas,
perde a visão. Totó passa a ser o projetista e se inicia na profissão, a partir de toda a
experiência obtida no convívio com Alfredo que agora o orienta nas questões da vida: alerta-o
de que não abandone os estudos e não faça daquela função momentânea, seu único projeto
de vida.
A situação da morte do pai de Totó é apresentada delicadamente no filme quando o
vemos na sala de projeção, fazendo com um documentário que anunciaria a lista de mais
soldados italianos falecidos na guerra, os mesmos cortes/censuras que Alfredo fazia com as
cenas de beijo. Num outro momento, quando pelas ruas acompanha sua mãe, que chora a
morte confirmada do marido, Totó vê e meigamente sorri para o cartaz de “O Vento Levou”
com a figura de Clark Gable, que um dia fora associado por Alfredo à figura de seu próprio
pai, quando Totó se queixava ao amigo de não mais se lembrar da fisionomia paterna.
Já adolescente, sempre acompanhado de Alfredo e agora de sua inseparável máquina
filmadora, descobre o primeiro amor e tem no amigo cego de visão, mas não de sensibilidade,
seu confidente nessa paixão ainda não correspondida.
Entretanto Totó não é o único a se benefiar da relação. Aos poucos percebemos que a
parceria estabelecida, torna-se para Alfredo tal qual para um pai, a possibilidade de
compartilhar os prazeres e descobertas, o desenvolvimento e o desabrochar do agora jovem
Salvattore tomado pelo arrebatamento da paixão que vive, mesmo separado de Elena. Totó
ouve então do amigo: “ _ Agora que perdi a vista enxergo mais, graças a você que me
salvou…”
Quando Totó volta do serviço militar, ainda abalado pelo desaparecimento de Elena,
procura pelo velho amigo e o encontra enfraquecido e doente. Num cenário sugestivo, de uma
praia deserta com carcaças e âncoras enferrujadas, um lugar quase sepulcral, Alfredo o
estimula a abandonar Giancaldo e seguir para Roma.
O crescimento de Totó, seu envolvimento cada vez maior com o cinema, as limitações
da pequena província e a sede de viver do adolescente Salvattore, levam Alfredo a incitá-lo a
buscar algo maior. Teme por Totó, que os sonhos despertados pelos filmes fiquem confinados
a uma cabine de projeção, sem a possibilidade de maiores realizações.
Nesse momento, creio que Alfredo percebe a oportunidade de fazer por Totó aquilo que
ele não pode fazer por ele mesmo ou quem sabe, pelos filhos que não teve.
Ao se identificar com o jovem Totó, Alfredo tenta ajudá-lo a se arriscar, talvez na
esperança de que possa através dele, alcançar a fruição de realizações que o Alfredo jovem
não satisfez em sua própria caminhada.
Na estação de trem a caminho de Roma ao se despedir da família e do amigo, escuta de
Alfredo:_ “Seja o que fizer, ame-o como amou a cabine do Paradiso, quando era pequeno”.
Entendo como um incentivo para que o entusiasmo, a paixão e a busca do sentido da
sua vida, o acompanhem na adultez.
O retorno de Salvattore a sua cidade, só ocorre para acompanhar o funeral de Alfredo
pois, com a morte deste, talvez sinta-se desobrigado a dar continuidade ao pedido do amigo,
para que ficasse longe de Giancaldo. É aguardado por sua mãe que sempre acreditou na
volta do filho e tecendo o tricô, o espera, à semelhança de Penélope da mitologia grega que
crê e aguarda pelo retorno de Ulisses enquanto tece e desfaz aquilo que já foi tecido.
O reencontro com a sua cidade, infância e seus objetos amorosos, seu quarto
conservado pela mãe, que abriga todos os seus pertences e fotos, além da máquina de filmar
com imagens de Elena sua grande paixão, reacendem todo um tempo de lembranças
nostálgicas. Estas até então, talvez ficassem adormecidas pela vida do cineasta famoso que
se tornara na cidade grande e pelo cumprimento ao pedido de Alfredo antes de partir para
Roma: – “Nunca mais volte aqui”.
Se Salvatore foi capaz de realizar o pedido do amigo, encontrando na atividade de
cineasta um substituto da paixão que tinha pelo espaço do Cinema Paradiso, o filme sugere
que o mesmo ele não conseguiu fazer com sua vida amorosa, seguindo preso às lembranças
da paixão por Elena, sem ter conseguido uma outra relação de maior significado.
E ao final do filme vemos um emocionado e solitário Salvattore, assistindo a todos os
beijos de amor recortados dos filmes, reunidos numa única fita organizada por Alfredo aquele
que foi mais do que um amigo e ocupou tantas funções afetivas e transformadoras na vida do
pequeno Totó.