2017 - 1º Semestre

Julieta (Espanha 2016)

Filme do dia 24 de junho de 2017

Comentários de Lilian Wendy  e Maria José Ferreira Mota

Tema do Semestre: Quando o não dito torna-se mal dito

 

Texto de Maria José Ferreira Mota, 

É sempre uma satisfação e uma aflição conversar sobre um filme de Almodóvar, esse cineasta com assinatura. Aflição porque sempre fica a sensação de que se percebe algo a mais, e a mais, a cada vez que se revê o filme.

Este filme, Julieta, particularmente, acho importante por evidenciar uma mudança no estilo que conhecemos de Almodóvar. Como em todos os filmes dele, as mulheres são o grande destaque, elas têm consistência, são complexas e são fortes. Almodóvar mostra mulheres fortes, decididas, que enfrentam as mais variadas situações, sempre solidárias entre si.

Mas há uma diferença aqui: as mulheres em Julieta evidenciam sua vulnerabilidade, especialmente a protagonista principal e suas manifestações emocionais são contidas, reprimidas. Em filmes anteriores, ao contrário, Almodóvar mostrava a mulher que se atirava ao que achava que tivesse que fazer, ou enfrentar, sem hesitações demais, sempre transbordando emoções.

Igualmente o papel do homem, sempre considerado por Almodóvar uma espécie de complemento dispensável da mulher, geralmente irresponsável ou muito perturbado, aqui mostra outras possibilidades, especialmente em Lorenzo.

Almodóvar em várias entrevistas recentes disse estar mais amadurecido, ser seu 20º filme e estar refletindo bastante sobre a passagem do tempo e o efeito disso nele. Segundo ele próprio, seus filmes são pedaços dele e representam os valores com os quais se relaciona com a realidade. Julieta tem as cores de Almodóvar, o gosto kitsch, a precisão nos detalhes, o conhecimento da alma feminina, mas em outros aspectos difere muito dos filmes anteriores. É um drama, não um melodrama e é sombrio, duro. Sabe-se que Almodóvar, ao dirigir o filme disse às atrizes que não queria lágrimas, mas abatimento. Ele definiu o filme como um “drama seco”.

Em Julieta também, Almodóvar, talvez produto dessa maturidade, faz um tributo claro a cineastas que admira, especialmente Hitchcock.

O filme foi baseado em três contos de Alice Munro, a escritora canadense premiada com o Nobel em 2013. Inicialmente seu nome seria “Silêncio”, o nome de um dos contos, mas na mesma época Tarantino estava terminando um filme com esse nome e ele preferiu mudar.

O filme

O filme começa com um cetim vermelho em ligeiros movimentos sugerindo uma parte íntima do corpo feminino. Algo tão íntimo, tão forte, mas na verdade, era o robe de Julieta, escondendo seu corpo. Julieta arruma coisas, sugerindo mudança, movimento.

Parece ser esse o enredo do filme: Julieta, sempre em busca de algo diferente, mas algo está oculto, por baixo dos panos. O que parece forte, bonito, vivo, oculta algo mais sombrio e frágil.  E não dito.

Julieta

         A forma como vemos Julieta organizar sua mudança para Portugal sugere que há questões não elaboradas sobre a passagem do tempo e coisas que ficaram guardadas, até largadas em uma gaveta, mas não esquecidas. As reações de Julieta são contidas, ela mostra pouco ânimo, um estado de alheamento. Essa falta de expressividade contrasta com o quadro de Lucien Freud, um artista sem pudor de expressar o que há de mais humano em nós.

         Vamos sabendo aos poucos de toda a história de Julieta, suas dores, suas culpas, seu sentimento de impotência e como foi lidando com tudo isso. Aparentemente, foi sobrevivendo, mas a fragilidade de suas defesas se revela quando tem notícias da filha Antía depois de 12 anos de desaparecimento voluntário dela, através de um encontro casual com uma amiga da filha.

         Desmorona-se o aparente equilíbrio emocional de Julieta e vamos sabendo mais dela como uma pessoa sem noção de pertencimento, sempre se deslocando de um lugar para outro, em mudança contínua, quase ao acaso. Na escola é por pouco tempo, logo passa a viver na cidade de Xoan. Na dor, aceita viver um tempo na casa de desconhecidos, a mãe de Beatriz, amiga da filha. Vai morar em outra casa, outra cidade, sem voltar para ver o que deixou para trás. Quando a filha não volta do retiro, muda do apartamento onde morava com ela, tentando novamente fugir da dor. Na esperança de ter notícias da filha que sumiu de sua vida, volta ao mesmo prédio onde morara com Antía.

      Julieta sente culpa. Ava lhe conta que Antía culpava as duas, Julieta e Ava, pela morte de Xoan e também se culpava. E evidentemente Marian, a empregada, também as culpava. O interessante é que nenhuma delas atribuía qualquer responsabilidade a Xoan, que sendo um homem do mar, saberia se haveria condições de navegar ou não. Ou a responsabilidade de sua infidelidade. Aqui temos Almodóvar, mais do que Alice Munro: os homens são considerados frágeis e irresponsáveis, as mulheres, não. A culpa, como geralmente acontece, mostra tons paranoides. Julieta diz que deveria ter percebido a intenção do homem no trem.

Se formos examinar de perto, de onde viria a ideia de culpabilidade de Julieta e das outras personagens?

         Julieta no trem, cheia de cores, de vida, de planos, sentindo-se bem acompanhada de seu livro e dos investimentos relacionados a ele se incomoda e se afasta daquele homem, depois saberemos, que não carrega bagagem, sente-se solitário e de certa forma quer impor sua presença a ela.

      Seria exagerado pensar que Julieta ao desejar realizar todo seu potencial de juventude inconscientemente temia seu significado: que isso indicava a morte de algo ou de alguém, ou a superação de uma condição que outros não tiveram, por exemplo, os pais? (Freud em Um distúrbio de memória na Acrópole)

 Mais tarde, see antes já se sentira culpada pelo suicídio do homem do trem, agrega-se agora a morte de Xoan. E a punição parece clara: a perda da filha.

Luto e melancolia e reparação

         Quando perdemos algo ou alguém que para nós foi ou é valioso, desenvolvemos o que a psicanálise chama de trabalho de luto. Há um sentimento de tristeza, um desligamento das coisas da realidade e a necessidade de um certo tempo para o desligamento em relação ao que foi perdido e o religamento à realidade. A pessoa, aos poucos, volta a ter a capacidade de envolvimento com outros interesses. A perda do amado pode ser pranteada e elaborada.

         Nos processos que chamamos de melancolia, a perda é sentida como devastadora, não é somente perda da pessoa ou daquilo que foi amado. Na melancolia, no dizer de Freud, a pessoa “sabe quem (perdeu), mas não o que perdeu nesse alguém. ”. Há uma identificação com a pessoa que foi perdida e há um empobrecimento do ego, com sentimentos de menos valia e autoacusações.

         Colar os pedaços rasgados, escrever, permitir-se voltar ao passado, falar sobre aquilo que não fora dito antes, assim Julieta vai conseguindo entrar em contato com o que tentara ocultar de si mesma: a filha também se sentira culpada por muitas coisas e tentara um caminho parecido com o seu, a fuga, sendo a de Antía para um culto de purificação e apaziguamento de angústias.

         O final do filme, que muitos consideraram um “final feliz”, me parece mais uma interrogação e um assumir das angústias, ao invés de ocultá-las.

         Na galeria feminina do filme, impossível não citar Rossy Palma, a empregada invejosa e maledicente, lembrando muito uma personagem de Eça de Queirós.

Os homens

Os personagens masculinos são mais estereótipos, clichês, como costumam ser nos filmes de Almodóvar. Interessante também notar que a escultora Ava faz homens com o pênis cortado. As esculturas são do artista Miguel Navarro.

– Pai de Julieta: meio rude, viril, prático.

– Xoan: o homem objeto de desejo, mas que pode trazer perigo ou fazer sofrer; foge dos conflitos para a aventura; mais propenso a enfrentar a tormenta do mar do que a que provocou.

– Lorenzo: forte, oferece segurança, dedicado, mas sem muita iniciativa, ao menos inicialmente.

– Homem do trem: com intenções suicidas e, como lembra Freud, “um neurótico não abriga ideias de suicídio que não venham de um impulso homicida em relação a outros, voltado contra si. ”

Lorenzo, no início do filme, estranha a atitude de Julieta de se recusar a mudar com ele, conforme haviam planejado, mas como os personagens masculinos de Almodóvar, não faz nada com isso, além de dar um apoio fraco. Aliás, diz que sempre percebera haver algo que Julieta ocultava, mas a “respeitara”. Seria respeito ou medo? Medo do feminino desconhecido? Talvez poucos homens tenham coragem de afirmar, como Freud, aturdido: “Afinal, o que querem as mulheres? ”.

No decorrer da história o personagem de Lorenzo vai ganhando mais solidez, suas atitudes são mais consistentes. Assume o cuidado de Julieta, e para isso até a vigia e mostra a força masculina da objetividade: quando Julieta diz que não foi convidada pela filha, ele a lembra que Antía mandou o endereço.

Almodóvar disse que o filme fala da dor da perda de um filho, do sentimento de culpa e fracasso de uma mãe envolvida nesse processo. Mas, também me pareceu que ele começa a fazer as pazes com a figura masculina.