2014 - 1º Semestre

Longe Dela (Canadá 2006)

Filme do dia 26 de abril de 2014

Comentários de Fábio Roberto de Sousa Vinholy  e Gley Marques da Silva

Tema do Semestre: O Envelhecer

Assim como a realidade de uma época se transforma, o cinema acompanha tais mudanças ao oferecer novas versões e leituras da realidade que nos cerca.

Lembrei que em 2002, pelo Ciclo de Cinema do NPSR cujo tema era “Ciclos da Vida” apresentei os comentários sobre o filme Baleias de Agosto que trata da velhice e iniciei meus comentários da seguinte forma…

O tema da velhice não ocupa um espaço importante na cinematografia…

Decorridos 12 anos, não vejo mais como pertinente esta afirmação.

Segundo dados do IBGE, na última década, houve um aumento em torno de 50% no número de pessoas acima de 60 anos e acompanhando esta nova realidade, vejo também um salto significativo no número de filmes apresentando a velhice numa linguagem diferente daquela abordagem de 10 ou 15 anos atrás.

Além de escassos, os filmes quase sempre refletiam a velhice apenas como um período de solidão, ausência de prazer, desinteresse e inaptidão como se a terceira idade se resumisse apenas em esperar a chegada do fim.

Atualmente temos uma boa safra de filmes sobre envelhecimento mostrando essa fase com características diferentes e questões bem contemporâneas. Não se trata de negar o que é inerente ao envelhecimento mas, incluir possibilidades de reinvenção ao se chegar à terceira idade.

A expectativa de vida aumentou e o espaço para pensar em questões da terceira idade também: o que fazer com o tempo disponível quando acontece a aposentadoria, como lidar com as limitações físicas quando nem sempre há filhos por perto para colaborar e que agora adultos têm seus próprios problemas para resolver, a importância da lealdade de amizades construídas ao longo de décadas, como se organizar, inclusive financeiramente, para ter e viver sua própria vida, como tomar consciência de quem se é e do que se quer, batalhando por isso o que pode incluir prazeres do compartilhamento a dois, a busca por um novo parceiro, sexo, uma vida ativa profissional, social e cultural.

Todas estas e muitas outras questões vem sendo exploradas em filmes como Glória, E se vivêssemos todos juntos, Os belos dias, O quarteto, Amor, O exótico Hotel Marigold, só para citar alguns; são filmes de diferentes nacionalidades – Chile, Alemanha, França, Reino Unido, com os quais nos identificamos, comprovando a universalidade da essência do ser humano nas suas angustias, necessidades e afetos.

Penso que Longe dela, também aí se inclui.

É um filme que com muita sensibilidade vai abordar, o que a principio parece ser apenas o Mal de Alzheimer, mas que no desenrolar da trama mostra-se como uma obra que explora os temas do amor, casamento, traição e renuncia.

 “Às vezes você tem que deixar o que você não pode viver sem” (Fiona)

Dirigido por Sarah Polley, a história é baseada no conto “O urso atravessou a montanha” de Alice Munro, escritora canadense de 83 anos, vencedora do prêmio nobel de literatura de 2013; Longe dela reúne a matéria prima com que Munro constrói seus personagens.

Em um de seus livros, Munro assim é apresentada – “Nesse terreno incerto, as criaturas de Munro temem, amam, esperam, se assombram. E caminham sempre para um patamar diferente da sua condição – seja de alegria, seja de desilusão, como se o que importasse fosse sair do lugar, porque os contos de Munro são histórias de aprendizado…

E é um difícil aprendizado que se impôe ao casal Grant e Fiona, que após 44 anos de um casamento, aparentemente constituido de bons momentos, é confrontado com o impacto de ter que aprender a viver longe dela, daquela Fiona que conhecem, agora acometida pelo Mal de Alzheimer.

Fiona se indaga se haverá possibilidade de não se distanciar da mulher que sempre foi: elegante e bem cuidada, olha-se ao espelho momentos antes da internação, se observa e diz: – “Vai ser mais ou menos como estar em um hotel”.

Grant não quer ficar longe da mulher cheia de vida que o encantou quando ainda eram jovens, desde que ela o pediu em casamento.

Com as primeiras manifestações da doença, a perplexidade toma conta de ambos fazendo emergir diferentes reações – em Fiona vemos uma serena e corajosa resignação, inicialmente tentando lidar com suas falhas de memória ao inserir etiquetas presas às gavetas, nomeando os objetos que estas contêm. Posteriormente, com a percepção do agravamento de seu quadro, passa a discutir com Grant sobre a necessidade de sua internação e apesar da resistência deste, justifica com firmeza tal decisão, fazendo uso de uma descrição científica sobre a progressiva degeneração do doente e dos percalços para os familiares cuidadores.

Ao contrário de Fiona, Grant resiste, nega, não consegue aceitar a visível perda da saúde de Fiona, não tolera ter que se haver com tais mudanças não escolhidas, mas impostas por uma dolorosa realidade que indica a perda daquela que para ele, possuia a “centelha da vida”.

       No Dicionário Houaiss, o significado da palavra centelha, por metáfora, significa o espírito humano: razão, entendimento; na essência, aquilo que por ironia dá claros sinais de finitude em Fiona.

Difícil de aceitar, porque Fiona em torno de prováveis 70 anos é uma bela mulher – esguia e elegante tem como lazer o esqui, na literatura o combustível para as conversas compartilhadas com Grant, professor universitário aposentado.

Mas o pior ainda estava por vir e a cada mudança que reflete o avanço da doença de Fiona, vemos Grant se defendendo da dolorosa realidade através da negação. Tenta justificar para si mesmo e para outros que Fiona sempre teve um temperamento especial, que ele percebe, por vezes, que para ela há registro de momentos compartilhados por ambos e que ela poderia na verdade estar fazendo uma encenação.

Grant vive o conflito entre renunciar às tentativas de transformar a realidade conforme o seu desejo, por não poder aceitá-la como esta se impõe apesar das claras evidências, ou enfrentar a dor mental que o invade e ameaça.

Tem que lidar com experiências dolorosas que estão fora da sua área de controle, lidar com a frustração da impotência de ambos frente à doença, com o desamparo que o invade no solitário enfrentamento de decisões penosas, lembranças que o fazem sentir-se culpado e lidar além perda de Fiona, com a perda de uma vida a dois de prazer e realização.

Trata-se de uma vivência difícil, que se aproxima do processo de luto, que implica na renúncia daquilo que não mais é possível, desinvestindo a libido de objetos e situações prazerosas não mais disponíveis, buscando talvez num momento futuro, reinvestimento em novos objetos.

Viver longe dela – a Fiona de até então – traz para ambos o desafio de enfrentar uma reorganização que não é apenas em seu cotidiano – mas das suas identidades individuais e de casal, constituídas ao longo de tanto tempo.

Entrar na terceira idade significa entre tantas questões, tomar consciência com o encurtamento do futuro, moldar desejos às suas reais possibilidades de realização, mas não necessariamente uma vida sem projetos ou finalidades que dão sentido à existência de todo ser humano, em qualquer idade, desde que haja sabedoria e lucidez.

Fiona percebe que a lucidez a abandona, que começa a perder a relação consigo mesma e sua história, sente-se desaparecendo gradualmente, “Estou indo” ela diz, e se decide pela internação a contragosto de Grant, que se mostra novamente relutante à realidade afirmando: “Mas será algo provisório”, diferentemente de Fiona que serenamente lhe sorri e quase o consola dizendo “ Tudo bem… podemos pensar assim”.

Fiona busca, no que talvez sinta como seus derradeiros momentos de lucidez, ser a protagonista de sua história: arruma-se com esmero para a internação, dirige-se à recepcionista da clínica como se fizesse um check in, observa e aprova o quarto que lhe foi reservado e pede a Grant, que na despedida, façam amor.

É também neste momento, a caminho da clínica, que percebemos uma faceta da relação do casal: o não dito. Fiona aborda com Grant, um assunto sobre o qual nunca falaram, coisas que segundo ela gostaria de ter esquecido, mas não esqueceu, algo que parece ter ficado em aberto entre o casal desde há 20 anos atrás, na época da aposentadoria de Grant, quando se mudaram para o chalé onde agora vivem.

Grant se envolveu com uma aluna, mas ao abordar a infidelidade dele, Fiona revela uma rara atitude frente à situação sugerindo entender como difícil resistir à sedução das jovens alunas, entender a impulsividade juvenil de Verônica em suas ameaças de morte e preferindo ficar com a satisfação de ter em Grant o marido que optou, assim como ela mesma, tentar manter o casamento apesar da infidelidade comprovada.

Crise superada?

Penso que não, pelo menos para Fiona que se mostra por vezes irônica, quase mordaz, fazendo insinuações veladas a Grant sobre “sua aluna tcheka” ou como o casamento pode se parecer ao Alzheimer levando a pessoa a se sentir “ incomodada com algo mas incapaz de informar sobre o problema ou conseguir entendê-lo”.

Neste episódio penso que tolerância às limitações e frustrações, e possibilidade de escolher frente à realidade dolorosa aquilo que julgou melhor para si, talvez fossem singularidades já presentes em Fiona, Entretanto conversar sobre a dor daquele momento ficou interditado.

       Fiona escolhe, com calculismo, o momento de despedida para esse “acerto de contas”, movida pelo desejo inconsciente de culpabilizá-lo?

Ou porque neste momento, o que para ela importa é o significativo que deixou de fazer e se vê frente ao “é agora ou nunca”?

Decorrido um mês de internação, Grant vai ao encontro de Fiona e para sua aflição e decepção encontra uma Fiona que além de não mais reconhecê-lo, se afeiçoou a Aubrey, outro interno que ela cuida com carinho e de quem não se afasta.

A compreensão sobre a doença e tudo que já lera sobre o assunto não são suficientes para aplacar a dor e o inconformismo de Grant ao perceber que Fiona é agora a ausência presente da mulher com quem ele se casou.

Passado o período de negação, estranhamento, frustração incontida, Grant se revolta tentando por vezes forçar Fiona a se lembrar dele, resistindo à dolorosa percepção de não mais fazer parte dos pensamentos e afetos de sua mulher. Em um desses momentos vemos também uma Fiona atormentada, assustada que consegue à sua maneira explicar porque se sente melhor com Aubrey: “ele não me confunde”.

Por fim, Grant renuncia ao seu desejo de ter uma Fiona que não mais existe e busca oferecer a ela algum conforto e paz o que vai exigir dele novos movimentos.

Após a esposa de Aubrey resolver tirá-lo da instituição, Fiona não suporta a separação e cai em profunda depressão. Assustado com a possibilidade de que ela seja levada ao segundo andar da instituição, destinado a internos graves, Grant busca convencer Marian, esposa de Aubrey, que leve o marido novamente para a instituição, nem que seja apenas para uma visita. Sua intenção é proteger Fiona do sofrimento causado pela separação, mesmo que para isso tenha que seduzir Marian.

Ao longo do filme observamos Grant inicialmente tomado pela negação e incredulidade, seguindo-se momentos de raiva e inconformismo, até a dolorosa resignação com as circunstâncias, evidenciando um sentimento de culpa detectado pela enfermeira que o questiona: _ “Você nem sempre foi um marido devotado, não é? Para os homens poucas coisas deram errado, mas será que ela também pensa assim?”

Ao final do filme há um breve momento que sugere, apesar da limitada lucidez de Fiona, poder o casal tentar desfazer o interdito quando Grant dirigindo-se a Fiona lhe pergunta:

_ Você acha que dá para deixar p´ra lá?

Atravessar a velhice com sabedoria significa renunciar ao que não mais será possível realizar, obter fruição das conquistas e criações, resignar-se com serenidade às inevitáveis perdas e ao se fazer o balanço da vida, buscar reparações naquilo que estiver ao alcance, elaborando o luto do que foi perdido, tentando se abrir às oportunidades possíveis.

Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento – Alice Munro, Biblioteca Azul, 2013.