2014 - 1º Semestre

Lugares Comuns (Argentina, Espanha 2002)

Filme de 15 de março de 2014

Comentários de Ivani Cardoso  e Maria Lúcia de Almeida Console Simões

Tema do Semestre: O Envelhecer

Lugares comuns

O filme do diretor Adolfo Aristarian (2002), propõe à nossa reflexão muitas situações cotidianas. Lugares Comuns: frases feitas, clichês, mas que continuam sendo verdades: problemas criados pela aposentadoria, envelhecimento, ideal politico, lutos e perdas.

Diferentes são também os ângulos de abordagens possíveis. Escolhi dentro de tantas opções que o filme oferece privilegiar meu olhar psicanalítico sobre como os personagens, com seus recursos internos, lidam com as questões propostas no filme. Cada personagem tem formas diferentes de envelhecer, e o fazem com seus recursos individuais disponíveis, para realizar mudanças em suas vidas.

Lugares Comuns retrata o exílio tanto interno quanto externo de Fernando que é obrigado, por decreto, a se aposentar, fazendo alusão a dois mundos que se entrelaçam: a crise em uma dimensão econômica/material – uma decadente Argentina golpeada economicamente e outra que se dá em seu mundo interno.  A partir daí, não só receberá uma remuneração aquém das suas despesas e necessidades, como terá que enfrentar o desafio da mudança não apenas de sua visão de mundo, mas também acerca de si mesmo. A aposentadoria compulsória o coloca frente a uma crise. Embora o fenômeno da aposentadoria possa de fato trazer sérias consequências para as pessoas, isso é por vezes vivenciado de forma mais tranquila e menos dolorosa.

Existem também acontecimentos que mudam o curso previsto e previsível de uma vida, (o imprevisto, o imponderável, a fatalidade), que se colocam com mudanças catastróficas, que envolvem: um luto por aquilo que se perde, disponibilidade para se dar lugar ao novo e às novas significações. Se as coisas não funcionam, é atuada uma série de vias de fuga, que podem ser atuadas e utilizadas. Ou seja, diante de uma mudança, a pessoa usa seus recursos internos para enfrenta-la ou para se evadir dela. No filme, isso fica claro se pensamos como Fernando e Liliana enfrentam as situações que a vida lhes propõe.

Para Fernando, a perda do emprego representa a perda da vida. Estrangeiro dentro de si, não conseguiu preparar-se para a sua aposentadoria, pois fica aprisionado no mundo intercambiável de ideias Não pôde suportar que aquela história tivesse um fim. Sua vivência foi traumática, como se esse fato fosse inesperado e surpreendente. O filme faz poucas referencias ao seu passado, mas podemos inferir que Fernando tinha dificuldade para lidar com situações traumáticas e suas vivências de desamparo.  Vai para frente da TV, bebe e fuma desmedidamente, e é possível perceber que o faz  como forma de se evadir do encontro consigo mesmo e do enfrentamento da dor mental; como forma de negar o contato com a dor do envelhecimento, lutos, finitude e morte. Viveu a vida toda como se não fosse envelhecer.

O luto significa a realização de um trabalho em que é necessário desinvestir a energia libidinal do objeto perdido e direcioná-lo a outro. Esse processo é algo difícil, exigindo da pessoa, um trabalho doloroso, mas necessário. Na melancolia, entretanto, tem-se uma realidade diferente. Esta também, consiste numa reação frente a perda, no entanto, revela-se que esta perda pode ser mais de um ideal. Há uma confusão entre o objeto perdido e o próprio Eu.

Nesse sentido, o trabalho e os ideais políticos de Fernando no filme, são entendidos como esses objetos. O rompimento com o trabalho acaba por fazer florescer em Fernando, a sensação de inutilidade e isolamento, solidão e desamparo. Fixado e ressentido, fica vivendo os ideais passados sem poder transformar em soluções possíveis seus sonhos de juventude. Você é como o ritmo de um tango sentimental e antigo, está ancorado nos anos 60, lhe diz Carlos. Vive um tempo circular 1789/2000, em que não há diferença entre tempo e espaço, incapaz de se defrontar com a frustração e tentar modificações construtivas. Sonha o mundo nos moldes da Revolução Francesa. Não seria a utopia  uma ferramenta a qual se apegava para sobreviver? Minha impressão é de que é refém de um narcisismo empobrecedor. Idealização e recusa interferem no trabalho de luto que conduziria à resignação e a passagem para outros objetos. Para se enlutar teria que admitir a perda e sua responsabilidade nela implicada. Ao longo do filme reafirma ressentido suas posturas inabaláveis. O que seria o luto de um ideal se transforma em melancolia.

Escrever sobre si mesmo, penso que foi uma tentativa de reconstruir sua historia interna. Não se trata de acumular lembranças como itens de uma lista, mas de combinar entre si, as lembranças para dar uma coerência a sua existência. Essa capacidade está relacionada com a possibilidade de aprender com as experiências passadas, e para isso é necessário guardar vivo em no presente todas as perdas que o envelhecimento acarreta. Não conseguiu construir dentro de si um espaço para gestar e abrigar uma história, um livro. Apenas “anotações”, quem sabe um dia, viraria algo para ser publicado. ”Escrevo do caos, na mais completa escuridão”.  Mas não vingou. Cadernos não revelados, assim como o amor que sentia por Liliana. Fala sobre ele para a bibliotecária, mas não para Liliana sobre tal sentimento.

Aprisionado em um mundo de ideias, coloca sempre fora a responsabilidade de coisas que deveriam ser construídas internamente. “Deixei que Lili se encarregasse de tudo. Como em um pesadelo queria me mover, mas não conseguia”. O seu sonho fica interditado.

Em Madri se decepciona com as escolhas que o filho fez: “nenhuma das expectativas que tive como pai se realizou”. Espera algo impossível do outro, aquilo que não pode oferecer, posicionando-se no lugar de uma injusta vítima. Mostra-se dessa forma impedido de aceitar as escolhas do filho e volta para Argentina entristecido.

Começa a se isolar e refugiar-se nos cadernos. Fernando não consegue elaborar seus lutos, diferente de Liliana, que dispõe de sua casa, herança de seus pais, e acompanha Fernando em sua intentada viagem. Escreve para o filho: “essa mudança pode nos despertar para algo melhor. A gente sabe, mas se esquece de que nada é para sempre e que a única coisa que realmente nos pertence são nossos sonhos e é isso que nos move”. “Sonhar é acordar-se para dentro” Diz Mario Quintana. Penso que houve uma verdadeira transformação na perspectiva de vida dela.

Compram uma fazenda de plantação de lavanda no interior da Argentina e se mudam para lá. Paisagem de desolação/vazio e frio. Uma alusão ao inverno na vida e um vazio como espaço de possibilidade a ser preenchido. Córdoba – 193KM .

Por um tempo pode por de lado a dor do fracasso e se envolver com novas propostas. Fernando tenta fazer algo construtivo, transformador. Como casal eles tem que se reinventar, pois no momento um só tem o outro. Mas quando o financiamento para a compra das máquinas é negado deprime novamente. Cada impossibilidade é vivida por Fernando como desistência. Parece que ele está ancorado no principio Prazer/Dor, evitando sistematicamente o Princípio da Realidade. Liliana pergunta a ele: “Será capaz de ser feliz, não digo hoje, algum dia? A gente pode pensar o que quer, mas as vezes pensamos o que não queremos pensar. É como um jogo, pode pensar e viver”.

Liliana vai articulando suas experiências emocionais, tentando se adaptar aos novos desafios que a vida propõe, obtendo assim gratificações realísticas.  Faz o luto por aquilo que perdeu, e um espaço  disponível para dar lugar ao novo e às novas significações. Demonstra uma capacidade para lidar com o tempo linear e finito, portanto, com o envelhecimento e outras cesuras decorrentes do tempo retilíneo, que é o tempo real.  Cuida das coisas da casa e vai re-construindo sua história. A parede da sala com os quadros dispostos de forma harmoniosa contrasta com as caixas de livros de Fernando ainda fechadas, o que me faz pensar em seus recursos encaixotados e não disponíveis para serem usados. Como se fossem vazios mentais para onde se refugia quando tem que lidar com algo não previsível.

Outro ponto importante do filme é a inversão de papéis na maturidade dos pais. Chega a vez dos filhos cuidarem deles. Será que isso é possível sem que sentimentos de culpa, ressentimento, dependência sejam acionados atuados?

Minhas impressões acerca de Fernando são de um movimento duplo, e seu sentido me parece ambíguo. Fala sobre Lucidez, morte, finitude, porem quando sobe a montanha adormece descuidadamente exposto as intempéries, correndo o risco de adoecer, impedindo a busca de uma ligação entre o que vive no seu corpo com o que vivencia mentalmente. (Tem duas pontes de safena, uma de rim, várias pneumonias)

O filho vem para estar com ele no hospital, e se despedir do pai. Convida a mãe para ir morar na Espanha com sua família, mas ela escolhe ficar e continuar cuidando da fazenda. Lamenta não ter conversado com o pai como gostaria. Ao lhe entregar os escritos do pai “Liliana diz: seu pai escreveu para que algum dia eu lhe desse. Será como se falasse com ele”. Não se trata de dar satisfações, ou de fazer o que seu pai e eu queremos que faça. Se trata de fazer aquilo que você gosta. Apenas “isso”.  Liliana também lida de forma diferente com o filho. Embora diga que pensa  como Fernando, pode suportar e respeitar as escolhas de Pedro.  O que ele irá fazer com isso vai depender da gratidão que pode ou não sentir. Se for voltar a escrever ou não, fará parte das suas próprias escolhas. Parece-me que os escritos esquecidos na esteira do aeroporto dissolvem-se como “Palavras ao vento”,

Liliana após a morte do seu marido tem que defrontar-se com novos problemas e papéis e para isso, precisa aprender um novo repertório de soluções de para que possa sentir-se segura. Divide conosco sua sensibilidade de “estar ao lado”, nos instantes mais necessários da existência das pessoas com quem convive. Uma companhia viva de mãe adequada, da amiga dedicada e da esposa amorosa e companheira, que aceita a vida em suas alegrias e tristezas, que sabe lidar com seus recursos e limitações, que tenta desenvolver-se afetivamente para poder estar ao lado, sempre, tanto nos momentos de prazer quanto nos momentos em que Fernando precisa dela. Retoma o projeto de Fernando, mas sob uma dimensão criativa, o que lhe permite não sucumbir ao desespero e crer que a vida vale a pena ser vivida.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Amendoreira, Maria Cristina Reis. Elaboração de perdas no envelhecimento – Luto, suicídio e Morte.

Freud, Sigmund. Luto e Melancolia.

Steiner, John. Refúgios Psíquicos

Kancyper, Luís. Ressentimento e Remorso.

Ferro, Antonino. Fatores de Doença. Fatores de cura.

Quinodoz, Danielle. Envelhecer, uma viagem para a descoberta de si mesmo.