2015 - 2o Semestre

Morango e Chocolate (Cuba 1994)

Filme do dia 17 de outubro de 2015

Comentários de Rodrigo Christofoletti  e Vera Lucia Blank Gonçalves

Tema do Semestre: Intolerância

Comentários sobre o filme Morango e Chocolate
“Amar o próximo como a si mesmo é a peste da humanidade”
Nietche
Vera Lucia Blank Gonçalves
Filme sensível, inteligente, atemporal, passado em Cuba de Fidel Castro, como
poderia ser aqui, no Brasil de hoje, ou em qualquer outro lugar…
Começo pelo título sugestivo, dois sabores diferentes, não misturados, portanto
Morango e Chocolate, mas que ao se juntarem modificam-se mutuamente. É
uma bela metáfora que significa ser possível conviver com as diferenças.
Mostra o quanto a tolerância, o amor, a solidariedade podem derrubar os
muros que nos separam se conhecermos melhor os outros como humanos.
Essa é a essência do filme, a difícil conquista da liberdade, da individualidade,
num mundo tão intolerante com as diferenças. Como lidamos com o individual
e com o social, sendo humanos e inseridos numa sociedade. O filme aprofunda
uma reflexão sobre a mente grupal, nossos preconceitos e intolerâncias pelo
não eu, pelo que não é igual, e pela exclusão de quem pensa e age diferente
dentro de sistemas fechados… Social-ismo versus Narcis-ismo.
Traz como pano de fundo a questão do homossexualismo, que é tratada de
uma maneira bem sensível, mas o que eu quero destacar não é a paixão
sexual, mas o quanto uma pessoa pode também se apaixonar pela mente de
um outro, pelas suas ideias, mesmo em circunstâncias tão adversas, como no
caso de Diego e David, os personagens do filme. Esse fenômeno é chamado
na psicanálise de Identificação – “a expressão primeira da ligação afetiva a
uma outra pessoa.”
Desde Freud, a Psicanálise anda na contra mão desse discurso moralista,
apesar de terem se passado mais de cem anos desde seu trabalho “Três
Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” de 1905, aonde ele aponta que a
atração sexual não é uma questão biológica, mas sim pulsional das nossas
escolhas. A Psicanálise privilegia muito mais a pulsão do que o objeto
escolhido. Ainda assim trazemos esse preconceito, por vezes dissimulado,
outras vezes escancarado e de uma forma totalmente ignorante, como chegar
a propor até a cura gay!
A homossexualidade não é uma questão dos homossexuais, mas uma questão
do sujeito humano. Partindo das noções de pulsão e objeto, o que leva uma
pessoa a fazer escolhas heterossexuais ou homossexuais? Freud aponta a
questão da bissexualidade, fator universal, trazendo essa noção ao nível
psicológico, postulando que tendências masculinas e femininas coexistem
desde a infância em todos os indivíduos, de forma que essa escolha objetal
definitiva depende da predominância de uma tendência em relação à outra.
No Inconsciente não há distinção da diferença sexual, o sujeito desejante
ocupa nesse momento a posição masculina (ativo) e quando está na posição
de objeto desejado (passivo) assume posição feminina – são formas que a
libido toma no momento que ama e que escolhe seu objeto. Portanto o amor é
heterossexual, permite a troca.
Quero tratar agora do aspecto indivíduo – social sob a ótica dos fenômenos
grupais. O homem é um animal político (Aristóteles). É sabido que o indivíduo
em um grupo pensa e age de maneira diferente do que agiria isolado, pois sua
personalidade consciente se esfacela em proveito da sua personalidade
inconsciente.
Ele adquire um sentimento de força invencível, perde o sentido de
responsabilidade individual e da consciência moral. É o fenômeno do contágio,
a ponto de sacrificar seus próprios interesses pelo interesse coletivo (caso de
David); torna-se sugestionável como uma pessoa hipnotizada nas mãos do
hipnotizador. (Freud, Psicologia das Massas e Análise do Ego).
Surge a necessidade de um líder, com prestígio e interesses comuns, em torno
do qual as pessoas se agregam, se influenciando mutuamente, adquirindo
comportamento regredido e primitivo. Sentimentos de compaixão enfraquecem
o grupo, que também exige do líder força e brutalidade. Emoções passam a ser
exaltadas e o pensamento inibido – ATUAÇÕES.
Trata-se de Identificação. A força de EROS (libido) sustenta a coesão do
grupo: “Por amor a eles” (Revolução). Não só o amor, como também o ódio
constitui um fator de unidade, portanto ambivalência, projetando sentimentos
hostis contra a pessoa amada,ou vice versa, como no caso de David, que
começa a admirar aquele que supõe ser o alvo do seu ódio. Há uma limitação
do narcis- ismo em favor do social-ismo, uma renúncia em favor da maioria,
que é um dos fundamentos da Civilização. Vejamos como isso se dá no filme:
Diego é um professor de arte, culto, firme em seus ideais políticos e
homossexual assumido que faz um uso agressivo da sua sexualidade para
provocar e enfrentar seus adversários, pois suas ideias e sua escolha sexual
são tidas como subversivas, contrárias à ideologia cubana, aonde ser
homossexual significa afrontar a política do partido. Homo pensante e homo
sexual, duas afrontas dignas de perseguição na Cuba daquele momento!Para a
ele a arte é para sentir e pensar!
David é filho de um trabalhador rural, firme em seus princípios ideológicos, que
graças ao partido comunista consegue frequentar a universidade e se tornar
um revolucionário assumido, doutrinado pelo regime, cheio das verdades
aprendidas no partido e se aproxima de Diego inconscientemente atraído pelo
interesse aos livros (sua escolha principal na vida da qual abre mão pelo
partido). No começo para fiscalizá-lo e denunciar quem vive contra o sistema,
mas acaba seduzido não pelo seu corpo, mas pelo novo mundo das ideias que
Diego lhe apresenta, pela sua liberdade de pensamento – o conhecimento e a
cultura abrindo portas e espaços mentais numa mente antes aprisionada pelas
verdades absolutas do sistema…Vínculo K à O, na teminologia de Bion, ou
seja o vínculo do Conhecimento nos levando a um estado de amplitude, de
infinito…
O fanatismo cega, tanto o religioso como o político. Enquanto David está cego
e atua, Diego pensa, tem consciência libertária, transborda cultura, aponta as
falhas, mostra verdades, enxerga! Ele é contra a injustiça, o preconceito, a
exclusão.
Enxergar dói e Diego sofre, ansiedade depressiva, daquele que pode integrar
os dois lados, o bom e o mau, diferente de David, ainda na posição
esquizoparanóide (Melanie Klein), com o predomínio da ansiedade
persecutória, aonde não há lugar para a integração, é tudo ou nada!
Absolutismo!
Podemos ampliar essa temática para outros aspectos, como a violência não só
física, mas a violência mental da descriminação, sexual, racial, política!
“O homem é o lobo do homem”, como citou o filósofo Thomas Hobbes, em
1651, no seu livro Leviatã. Ele é capaz de grandes atrocidades e barbaridades
contra os elementos da sua própria espécie! Instinto de vida e instinto de morte
são forças opostas que convivem dentro de nós, e o amor é a força propulsora
que nos impulsiona para tudo que é vida, solidariedade e generosidade para
com o próximo e principalmente para conosco.
O mundo todo assiste e vive atualmente a questão sofrida pelos refugiados da
guerra da Síria, da África, um problema de difícil solução e que requer ações
rápidas e humanistas por parte dos países. E o que assistimos, impotentes?
Tragédias, massacres, guerras… O instinto agressivo e destrutivo predomina
nas diferenças e no fanatismo religioso, fazendo milhares de vítimas.
A aproximação de David e Diego produz uma feliz transformação em suas
vidas, sem perda das identidades. Diego é professor por vocação,sente prazer
em lapidar a personalidade tosca de David, no começo com a intenção de
seduzir, mas também pelo prazer de ensinar, e aponto aqui uma cena muito
bonita no triângulo formado pela amiga Nancy, Diego e David, reportando à
cena primária, quando Diego percebe que os dois se apaixonam e oferece o
amigo, alvo de seu desejo sexual, para a mulher, abrindo mão dele, como a
criança que resolvendo sua questão edípica, pode abrir mão do amor de sua
mãe e se identificar com a figura paterna.
No Édipo invertido, o menino se identifica com o objeto desejado pelo pai (sua
mãe) e assume uma posição feminina, tomando o pai como objeto de pulsões
sexuais.
E no abraço final o gesto de amor que vence as barreiras do preconceito e da
culpa!
Talvez possamos amar mais em vez de matar uns aos outros!
Comentários de Vera Blank para o Ciclo de Cinema do NPSR.