2013 - 2º Semestre

O Garoto da Bicicleta (Bélgica, França, Itália – 2011)

Filme do dia 14 de setembro de 2013

Comentários de Ricardo Gonçalves e Maria José Ferreira Mota

Tema do Semestre: Paternidade

 

O tema deste semestre é a Paternidade, especialmente como é vivida na atualidade. Anteriormente, em 2007, já apresentei comentários a outro filme dos irmãos Dardenne, Luc e Jean-Pierre, “A criança”.

            Eles filmam de uma forma muito interessante. Claramente com uma preocupação humanista, seus filmes não pretendem evocar no espectador sentimentos daqueles que nos provocam lágrimas, ou profunda revolta. Não há a mínima possibilidade de um melodrama, nem de posições radicais de certo e errado. Não temos raiva do pai de Ciryl, nem colocamos Samantha no papel de heroína, o traficante é mau, mas também cuida da avó. Eles querem responder a questões que colocam como simples. Eles fazem quase que um registro da realidade. Em todos os filmes deles temos nenhuma ou escassas informações do passado dos personagens, não sabemos como chegaram àquela situação que vemos. Segundo eles, evitam dessa forma que se psicologize a situação.

            Então, será que vou cometer uma afronta com os meus comentários? Espero que não. Os filmes deles nos permitem pensar em questões urgentes, prementes, presentes, ligadas ao contexto social. Não por acaso, a Sociedade Brasileira de Psicanálise publicou este mês em sua página no facebook dados de uma pesquisa feita na Espanha sobre os impactos da crise econômica europeia na saúde emocional e física das pessoas. Os irmãos Dardenne, de origem operária, sabem muito bem disso e falam dos efeitos nas famílias e nas pessoas em geral, das pressões econômicas e da mudança dos padrões culturais que fizeram com que as famílias extensas se reduzissem, diminuíssem o contato e alterassem valores antes fundamentais.

            Ciryl tem 11 anos, está em uma fase do desenvolvimento emocional que chamamos de latência, entre a infância e a puberdade. Se em qualquer fase da vida a existência e a presença de um pai são necessárias, mais ainda para um menino e nesse período. Na latência parece não acontecer nada, mas só parece. Preparando o que vai ficar claro na puberdade e adolescência, aí se estruturam a relação com o mundo diferente da casa, com o grupo social, com a realidade. Há uma grande canalização de energia para as atividades físicas, para o grupo de amigos, para as tarefas intelectuais exigidas pela escola. Há uma grande energia que precisa ser regulada e contida até a eclosão da puberdade. Ciryl, pedalando ferozmente sua bicicleta mostra uma energia que está explodindo antes do tempo, sem continência, talvez tentando tapar um buraco.

Nessa fase, o pai é o grande aliado, o que desde sempre conheceu o mundo fora da intimidade mãe/filho. O pai é, desde o começo, o 3º na relação entre mãe e filho e teve que aprender a se ver com isso. Portanto, pode ser um importante professor no ensinar a lidar com o que o “mundo lá fora” nos coloca pela frente. Vemos que os tempos mudaram e hoje as mulheres, diferente das mulheres do passado, saem de casa, como os homens, para trabalhar, mas isso continua valendo. A ligação das crianças com a mãe sempre é mais presente e intensa, o pai sendo aquele cuja presença impede uma simbiose sufocante.

            Ciryl foi largado pelo pai em uma instituição. Há uma referência rápida à morte da avó, o que teria, segundo o pai, impossibilitado dele cuidar do menino. O pai de Ciryl é interpretado pelo mesmo ator que fez o pai, em A criança, um pai que vende o filho e diante da aflição da mãe diz: “A gente faz outro.”. Os irmãos Dardenne falaram que a escolha do mesmo ator teve a ver com sua condição técnica e não com uma espécie de reflexão continuada sobre esse pai que não consegue assumir seu papel. Mas, já que a obra de arte é pública, podemos nos permitir pensar que não é assim. Aquele jovem de ontem é o adulto de hoje e continua a agir sem pensar muito nas consequências. Mas, esse é um julgamento que estou fazendo, não que eles fazem. Só nos apresentam a situação: não se sentindo em condições de arcar com todas as tarefas de ter um filho, esse pai o deixa em um lugar, uma instituição, onde farão isso por ele.

            Em nossa época estamos vendo, muitas vezes, como que um desapego do pai em relação ao seu papel. Segundo o olhar dos Dardenne, muito deve ser tributado às mudanças socioeconômicas. Mas, não será também que estamos vendo o surgimento de um novo modelo de relações pessoais e a família da atualidade ainda não conseguiu uma definição de papéis tão bem estruturada como tínhamos no passado?

Fazendo um aparte sobre o Brasil, temos aqui um alto índice de registro de nascimento sem reconhecimento de paternidade, indicando que a tarefa de cuidar e educar é vista como sendo de responsabilidade maior da mulher. Segundo o IBGE, na pesquisa Estatísticas do Registro Civil (2011), 30% das crianças nascidas no Brasil ficaram sem reconhecimento paterno.

 Como Ciryl lida com esses fatos: criando uma realidade imaginária, onde seu pai e a bicicleta que ele lhe deu, estariam à sua espera em algum lugar. As pessoas da instituição já haviam dito a ele que o pai é que deveria procura-lo, mas ele não aceita isso. Essa é a lei do mundo adulto civilizado onde o pai, supostamente um adulto amadurecido, deveria saber seu papel e as funções inerentes a esse papel. Mas o pai de Ciryl não age assim e Ciryl se incumbe de uma tarefa que não seria dele.

Ciryl, mostrando persistência e determinação vai à procura desse pai. Ele tem uma crença: o pai não mantem contato com ele porque não pode, não porque não quer ou porque não se importa com ele. Também acredita que há certas coisas que o pai não faria jamais: por exemplo, vender a bicicleta que ele mesmo deu para o menino. Esse pai em que ele crê não é o da realidade, é um pai desejado, vivo somente em sua fantasia, um pai idealizado.

O contato com a realidade se faz de forma lenta e dolorosa. Mas se faz. O real vai fazendo seu efeito: a visão daqueles aposentos vazios e as paredes nuas, o anúncio que vê na oficina, a recusa de contato do pai, a recusa do dinheiro que leva.  O sofrimento é evidente na necessidade do contato com a água e na rebeldia em fechar a torneira, só apaziguada quando Samantha consegue saber o que está acontecendo. Também quando se auto agride após a afirmação do pai que não queria saber mais dele.  E, novamente, pedalando furiosamente, uma cena demorada e dolorosa, quando o dinheiro que achou que o pai aceitaria, ao menos o dinheiro, é recusado. O pai não quer saber dele de forma nenhuma!

A música de Beethoven, concerto para piano n 5 (O Imperador) é usada de forma parcimoniosa em algumas cenas, a intenção é que o garoto tenha algum tipo de alento em sua solidão, frase dos Dardenne. Mas, quem o auxilia mesmo, é Samantha que, literalmente, caiu em seus braços em uma frustrada tentativa de fuga da instituição à procura do pai.

Ciryl é um garoto desconfiado mas, mais precisamente, ele é um garoto que viu sua confiança abalada. Ele já a teve e perdeu.

A confiança é essencial para o desenvolvimento sadio de uma criança. Confiança baseada nos cuidados repetidos, na previsibilidade, na presença constante das mesmas pessoas em sua vida, na durabilidade das coisas e pessoas, no sentido de segurança fornecido por uma certeza de que se algo acontecer de danoso, alguém tentará  reparar o dano ou recuperar a situação. A experiência de um ambiente confiável deixa uma marca para sempre e essa marca existia em Ciryl antes de ser exposto à situação de rejeição, que foi uma quebra dessa confiança.

Parece que os irmãos Dardenne leram todo o livro Privação e Delinquência (Ed. Martins Fontes) de Winnicott. Segundo Winnicott, a tendência antissocial, especialmente quando pode ser observada em seu início, é uma expressão inconsciente de uma queixa ao ambiente, resultado de uma privação, de uma perda dessa confiança. Como se aquele menino dissesse: vcs me devem. Qual a melhor “cura” para isso: o tempo e um ambiente que não responda “olho por olho”, “dente por dente” às situações de enfrentamento. Por quê? Uma criança ou um adolescente que sofreu privação teve um abalo na sua relação de confiança com o ambiente. Desacredita de tudo e todos. Ciryl não confia nas evidências, ninguém responde às suas ligações telefônicas, fica irritado. Quando Samantha diz que vai ligar para o diretor da instituição para combinar de pega-lo no final de semana, ele diz: “Sei que não vai ligar.”. Ao que ela responde simplesmente: “Vou sim”. E realiza o que diz que vai fazer.

Na tendência antissocial há um impulso para retornar ao momento antes da privação e testar o ambiente para ver se, desta vez, as coisas são diferentes. Então, fica claro que temos uma criança difícil de lidar, uma situação complicada para gerenciar. Uma situação na qual Samantha se sai muito bem. A raiva de Ciryl não a abala, ela permanece ela mesma, com suas crenças, não se deixa contaminar pelo sentimento de rejeição de Ciryl. Na teoria de Winnicott, ela sobrevive inteira como a pessoa que é e, dessa forma, não se comporta como a imagem que Ciryl tem das pessoas.

Samantha deixa-se usar pelo menino conforme ele precisa, mas sempre se colocando. “Eu vou, sim, ligar para o diretor.”. Também traz referenciais da realidade para orientar Ciryl em situações difíceis: Vc pode se decepcionar com seu pai. Já com o pai do garoto, ela é firme e tem uma atitude dura, mas absolutamente necessária, obrigando o pai a dizer pessoalmente ao filho que não o quer mais lá. Qualquer realidade, por mais dura que seja, é preferível a uma ilusão. De  braços fortes e atitudes firmes, ela assume  a função paterna que Ciryl não tem no pai.

Voltemos ao pai. Ele fala: “Fico estressado quando o vejo.” Indicando que a questão narcísica de seu próprio conforto é mais importante do que o se debruçar sobre as obrigações de pai. Mesmo assim, ele faz pose de pai, oferece comida para o menino, um simulacro de pai, quando o que Ciryl quer é se identificar com esse pai, pede para mexer nos seus molhos, qual um menino que quer imitar o pai que se barbeia. Esse pai , como em todos os filmes dos Dardenne, é o próprio símbolo de uma Europa sem referências, largada à própria sorte.

 Temos no filme outra figura de pai: o pai do garoto que Ciryl atingiu no assalto. Esse menino aparenta ter uma idade próxima da idade de Ciryl, mas, ao contrário dele, está o tempo todo com o pai: no trabalho, no posto de gasolina. Onde, na história de Ciryl havia uma falta de pai, nesse caso parece haver um excesso de pai, com as mesmas consequências: o menino não sabe lidar com seus impulsos e fica muito dependente do pai.

Uma outra figura que aparece no filme, pretendente a tomar o lugar de um pai, é o traficante que, tendo tido a mesma experiência que Ciryl de passagem pela instituição, pelo visto não encontrou uma Samantha na vida. Ele se identifica como o personagem de um jogo de videogame, um personagem violento e poderoso, e assim encanta Ciryl, como costuma acontecer tantas vezes na vida real, quando um líder autoritário ocupa o lugar deixado pelo vazio de um pai e suas representações. Temos filmes muito bem feitos sobre o mal, a dor, a angústia, mas é para poucos fazer um filme dessa qualidade sobre a esperança e a bondade.“É necessário que se edifique, no interior de cada criança, a crença em algo que não seja apenas bom, mas seja também confiável e durável, ou capaz de recuperar-se depois de se ter machucado ou mesmo perecido.(…) Quando oferecemos segurança, fazemos simultaneamente duas coisas. Por um lado, nossa ajuda livra a criança do inesperado, de um sem-número de intrusões indesejáveis e de um mundo que ainda não é conhecido ou compreendido. E, pelo outro lado, protegemos a criança de seus próprios impulsos e dos efeitos que estes possam produzir.” (D. W. Winnicott, “Segurança”, em A família e o desenvolvimento individual, Ed. Martins Fontes)