2015 - 1º Semestre

Os segredos dos seus olhos (Argentina 2009)

 

Filme do dia 16 de maio de 2015

Comentários de Cesar Bargo Perez  e Juliana Picado Alvares Ribeiro dos Santos

Tema do Semestre: Estranhos Segredos

Um breve olhar sobre paixão e ressentimento

O tema deste semestre no Ciclo de Cinema do Núcleo de Psicanálise de Santos e Região (NPSR) é Estranhos Segredos, e o filme Os Segredos dos Seus Olhos aborda o quanto os olhos “falam”, demonstram os mais secretos e profundos sentimentos: como o torpor nos olhos da assassinada Liliana Colotto, os olhos vagos do viúvo Ricardo Morales, os obcecados do criminoso Isidoro Gomez, ou os apaixonados de Benjamin Espósito, dentre outros.

Esse é um daqueles filmes inesquecíveis, que permanecem muito tempo em nossa mente. Seja pelo roteiro complexo, com constantes digressões entre passado e presente, seja pela comovente e premiada trilha sonora, seja a bela fotografia – algumas cenas em sépia, como no início do filme e na cena em que Espósito se depara com o corpo de Liliana assassinada, em que a vítima é apresentada em uma citação estética a La Maja Desnuda (célebre obra de Francisco de Goya, que se encontra no Museu do Prado, em Madrid, ao lado de La Maja Vestida).

Mas, em especial, destaco a adaptação realizada, pelo também diretor, Juan Jose Campanella, do romance La Pregunta de Sus Ojos, escrito por Eduardo Sacheri. O diretor conseguiu o feito raro, sua adaptação cinematográfica superou a obra literária.

Devido ao tempo restrito, destacarei o que mais se ressaltou aos meus olhos: a paixão, que é inerente falar, e o ressentimento.

Paixão é uma feição de todos nós, algo da natureza humana. Quem não se apaixonou por alguém ou por alguma coisa, tem sua vida empobrecida.

O filme “Os Segredos dos Seus Olhos” tem como mote o crime brutal de Liliana Colotto. Assim, aqueles jovens, recém-casados, apaixonados, que viviam em lua de mel, têm a vida transformada, subitamente, em lua de fel.

Depois de 25 anos, Benjamin Espósito resolve escrever um romance sobre esse caso. O filme começa com ele escrevendo, tentando iniciar seu romance. Realmente é complicado achar o início de algo que nem começou e que, principalmente, ele teme. Ao dormir, e sonhar, Benjamin desperta e anota a palavra “TEMO”. No dia seguinte, buscando ajuda e, penso que naquele momento sim, conseguindo achar o início do seu romance, ele vai procurar Irene, sua colega no caso e sua paixão tão temida. Ao comentar sua ideia de escrever um romance e não saber por onde começar, Irene sugere que ele comece pelo o que mais lembra. Ele comenta lembrar-se de muitas coisas, mas não sabe se têm relação com a história. Aqui, assim como ocorreu com a palavra que sonhou, Benjamin não vê sentido. Em nosso trabalho analítico, vemos que as lembranças que ocupam a mente têm um sentido, tudo tem a ver com a história da pessoa. Afinal, está em seu pensamento, consciente ou inconsciente. Como o sonho, que é a realização de um desejo reprimido que vem disfarçado e tem relação com os restos diurnos.

O inconsciente é atemporal. Há 25 anos, Benjamin Espósito foge desse sentimento, teme assumir a letra “A” de amor. Porém, isso fica latente em seu inconsciente. Não se pode enganar a si próprio e tentar se convencer que a paixão que sentia por Irene já passou e que não deve mais pensar a respeito (obs.: quando a gente pensa que não deve mais pensar, já está pensando). Quem aceita que não fez nada, que não lutou pelo amor da sua vida, não pode ser feliz, porque “vazia” e “cheia de nada” não são outras vidas, é esta!

Penso que a escrita é uma forma concreta de organizar os pensamentos e sentimentos. Essa foi a forma que Espósito utilizou para se ajudar a encontrar a saída da prisão perpetua de quem vive com medo de amar.

O viúvo Ricardo Morales perdeu o amor de sua vida, sua esposa, de forma imposta e cruel. Seu olhar está sempre a vagar, perdido no infinito, em estado puro de amor. Não basta uma injeção letal, tem que ser prisão perpetua para que o assassino Isidoro Gomez, “viva esses anos cheios de nada”, destaca Morales. Porém, a prisão perpetua e “esses anos cheios de nada” não foi dada apenas ao assassino de Liliana, mas, igualmente, ao seu marido, que também fica preso perpetuamente. O ressentimento de Morales o aprisiona. Ele fica “re-sentindo”, sentindo novamente!

Kancyper (1994), psicanalista argentino, define a palavra ressentimento como amarga e arraigada lembranças de uma injúria particular, da qual se deseja tirar satisfações. Seu sinônimo é o rancor.

O ressentimento de Morales resultou em rebeliões sufocadas que acumulam seu “ajuste de contas”, por trás do que está a esperança de precipitar-se, finalmente, em atos de vingança.

É a partir do ressentimento que surge a vingança, como tentativa de anular as injúrias sofridas e, ao mesmo tempo, alimentar uma posição de vítima. É na vingança que se reverte a relação. O sujeito ressentido, na sua possibilidade de inversão de papeis, passa de um objeto anterior humilhado a um sujeito agora torturador.

É mediante o ressentimento que o sujeito bloqueia a afetividade, anulando também a percepção subjetiva da passagem do tempo. Ricardo Morales está doente de reminiscências. Não pode deixar de recordar, não pode esquecer. Ou seja, está esmagado por um passado que não pode separar e manter distante do consciente. O movimento que o anima é regressivo: é o retorno a um ambicioso e impossível estado anterior. O desejo que nutre o ressentimento é a recusa da realidade.

O sujeito ressentido não retorna ao passado com o fim de restaura-lo e assim poder reescrever sua história, mas sim faz uso particular do passado com fins distintos.

O ressentido não permanece ancorado na atemporalidade, mas amarrado a um passado, cujas contas ainda não saldou.

Presente e futuro são hipotecados para lavar a honra ofendida de um passado singular que se apoderou das três dimensões de tempo – passado, presente e futuro. A vivência do tempo no sujeito ressentido é a permanência no ruminar indigesto de um rancor para culminar, ou não, com a sua passagem a vingança.

É uma dor particular não assimilável, que não desafogou suficientemente sua fúria. Dor e fúria, sempre vigentes, congelam o fluir temporal.

Para Morales o tempo estrutura-se a partir de determinado momento já vivido – o momento da morte de Liliana.  O tempo está orientado ao contrário, do presente para passado. Claro está que o presente não se vive, tampouco como um verdadeiro presente, o que implicaria numa ancoragem atual e perspectiva de futuro, mas sim é vivenciado como uma débil emanação do momento crucial, absoluto, da morte de sua esposa.

O Ressentimento é um beco sem saída, dentro do qual o ressentido passeia aprisionado.

Após 25 anos, Benjamin Espósito reencontra Irene e consegue “falar escrevendo” (diferente de falar através dos olhos) sobre seus sentimentos por ela. Assim, chama-lhe atenção aquele papel com a palavra que sonhou: TEMO. Naquele momento, suportando apropriar-se de seus sentimentos amorosos e assumi-los sem receio, ele tem um insight e adiciona a letra “A”, explicitando seu amor e elucidando o caso:  TE AMO.

É como se naquele momento pudesse rever a sua própria condenação à prisão perpetua da vida vazia, temerosa. Assim, absolvido, livre, conseguiu enxergar seus sentimentos de maneira aberta e pôde (teve condições emocionais) encontrar uma porta em seu muro compacto que o interditava para a vida afetiva.

Não se pode deixar de enfatizar que a fidelidade e o acolhimento amoroso que Irene sempre lhe propiciou, deram-lhe o tempo e a confiança para desenvolver seu processo. O Amparo e o amor são processos terapêuticos sem par.

Uma interessante curiosidade: Benjamin, em hebraico, significa filho da felicidade. No filme, o Benjamin se desenvolveu e foi a busca dessa herança chamada felicidade. E Espósito vem do grego, é aquele que encontra a saída, e ele achou a saída dessa prisão quase perpetua do temor em amar. Na última cena do filme, ao adentrar o gabinete ele diz para Irene, “eu quero falar com você”, ela responde “ vai ser complicado…” e, enfim, ele despreocupadamente expressa: “não faz mal” e ela pede que feche a PORTA. Lembremo-nos de que Freud ressalta “como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada”.

Ao terminar de ver o filme lembrei-me de uma frase de Edgar Allan Poe, “os olhos são a janela para a alma”, e em licença poética, acrescentei: os olhos são a janela para a alma e o coração é a porta. Então, recordei de um poema, e trouxe para finalizar os meus comentários. É um poema escrito pelo Içami Tiba, psiquiatra, intitulado Portas.