2015 - 1º Semestre

Um Conto Chinês (Argentina, Espanha 2011)

Filme de 27 de junho de 2015

Comentários de Gisela Kodja e Maria José Ferreira Mota

Tema do Semestre: Estranhos Segredos

            Um filme sempre é um estímulo para pensarmos sobre a condição humana, embora nem sempre possa parecer à primeira vista.     À primeira vista, esse filme poderia ser visto como uma fábula moral, onde a moral da história seria: vale a pena ajudar os outros em situações difíceis porque você também será recompensado, seja com um happy end, seja com a possibilidade de elaborar e curar vários sofrimentos seus. Para mim essa é a fraqueza do filme para o qual caminha na parte final.

            Outra forma de pensar o filme seria, deixando de lado essa espécie de final de novela, examinar como o diretor conseguiu transformar um estímulo real, a história real de vacas caindo no mar, em uma história em que podemos examinar algo da condição humana, algo que o cinema permite fazer de forma magnífica. E, de quebra, como qualquer obra de arte, permitindo que seja um veículo de expressão e elaboração das próprias ideais, dores e questionamentos do seu criador. Em entrevistas, o diretor Sebastian Borensztein deixa claro como o revoltam coisas que considera absurdas no seu país. A guerra das Malvinas foi uma dessas coisas.

            Mas, vamos ao filme. Roberto vive do passado, ou melhor, no passado. Aparentemente acomodado a isso, seja em sua própria casa, seja na vizinhança. Todos provavelmente o acham meio estranho, mas Leonel continua levando os jornais e, inclusive, apresenta a prima Mari a ele. Á primeira vista parece uma aceitação de como o outro é, cada um sendo aceito com a esquisitice que lhe é peculiar porque, como diz aquela frase: De perto ninguém é normal. Nessa linha, conviver com os Robertos sem nenhuma interferência na vida deles seria “”aceitá-los””. Mas, seria? Vamos olhar isso mais de perto.

            Na atualidade, na nossa cultura, convivem dois tipos principais de relacionamento entre as pessoas cujos extremos são: invasão e distanciamento. Mas, será que são extremos?

            A invasão/intromissão da privacidade é favorecida pelo desenvolvimento e expansão da tecnologia. As notícias do vizinho ou do que acontece em qualquer parte do mundo nos chegam de todas as formas, pelo jornal, pelo Facebook, pelo Instagram, pelo WhatsApp. Assim como o que acontece comigo, o que eu gosto de comer ou de ver na TV, pode ser de conhecimento de todos. Gostemos ou não, queiramos ou não, temos mais possibilidade de saber dos outros e dos outros saberem de nós. E de opinar sobre tudo e todos.

A participação de pessoas umas na vida das outras dá uma impressão de envolvimento com a dor, aflição, ou a alegria do outro. As curtidas a uma postagem, as carinhas de ódio ou tristeza, dão a muitos a sensação de que têm muitos amigos, que não estão sozinhos.

            Em outro extremo, e me pergunto se um não tem a ver com o outro, temos um distanciamento entre as pessoas, um esgarçamento dos vínculos comparado com os de antigamente. Como se manifesta? Na contemporaneidade isso aparece até com colorido positivo, como respeito pelo outro, tipo: eu aceito como o outro é, não me meto na sua vida, cada um pode ser e se comportar do jeito que quiser. Será que é respeito, ou é indiferença em relação ao outro?

            Roberto exala de forma clara um pedido de ajuda, do meu ponto de vista, e acho que de qualquer psi. Mas, do ponto de vista comum, ele está lá com seu negócio, não incomoda ninguém, além das suas rabugices ás quais todos se acostumaram. A minha pergunta é: essa aparente aceitação de como ele é, não seria uma forma de afastamento, distanciamento de quem ele é de fato, uma pessoa que precisaria de ajuda para sair daquela espécie de morte em vida? Todos vivem suas vidas e se acomodaram às esquisitices dele.

Roberto tem rituais repetitivos, o que chamamos de compulsões. Compulsões se relacionam a obsessões, que atuam no nível do pensamento. Tem rituais e necessidade de confirmar seus pensamentos obsessivos. Qual são as obsessões de Roberto: acha que pode ser enganado e tem necessidade de agradar a mãe morta.

            Morte é a palavra presente desde sempre na sua vida. Palavra, não, situação. Um bebê é um filhote animal extremamente frágil e vem ao mundo completamente despreparado para o mundo. Em estado de desamparo. Um gato ou um cachorro, mesmo que forem retirados ao nascer do convívio de outros animais de sua espécie, vai se comportar como gato ou cachorro. O ser humano, não.  Quem faz do bebê um ser humano, isto é, quem o insere na cultura e lhe dá todos os recursos para que seja reconhecido como um ser humano, são os adultos mais próximos, que costumam ser os pais. Mas, para as coisas darem mais ou menos certo, o animal humano precisa ser tratado de uma forma que se caracteriza por uma dedicação, cuidado e interesse especial. A mãe de Roberto morreu quando ele nasceu. Deduzimos que ela era amada pelo pai de Roberto. Portanto, ele, de saída, ou de entrada na vida, já carregava junto um prejuízo duplo: sem mãe e com um pai de luto. As pessoas aqui presentes que já estiveram em situação de luto pela morte de alguém muito próximo e querido sabem que uma das manifestações desse estado é o afastamento de tudo, a perda de interesse.

            A dedicação de Roberto ao mausoléu de miniaturas de bichos de vidro conta-nos uma história. Sua relação é com o que está frio, imobilizado e extremamente frágil. Como ás vezes o conteúdo de nossa bolsa, ou o interior do armário revela muito de nós, essa cristaleira nos mostra muito de Roberto.

            Inicialmente, esse filme me causava um incômodo porque sua roupagem de fábula passa a ideia que problemas emocionais do porte que vemos em Roberto podem se “resolver” de uma forma que parece meio mágica. Sabemos todos que na vida real as coisas não ocorrem tão, digamos, facilmente. Considerando a possibilidade de que possam existir alguns poucos privilegiados que com algum golpe do destino possam elaborar questões emocionais complexas, a imensa maioria de nós precisa de muito, mas muita disposição para trabalhar questões emocionais tão sérias.

            Dando uma chance ao filme, e ao diretor, fiquei procurando indícios, como faria com um paciente. E vi um prognóstico positivo a partir de alguns sinais. Roberto tinha uma parte da casa, e especialmente a loja, mais arrumada; essa era a parte mais visível. Mas havia uma outra parte da casa dele, os fundos, o quarto que destinou à Jun, que era uma bagunça, um entulho de coisas sujas, feias, quebradas, inúteis. E antes mesmo da entrada de Jun em sua vida, Roberto já estava começando a arrumar os fundos, se descartando de algumas poucas coisas. E depois manda o Jun fazer isso e ele o faz de uma forma que agrada a Roberto. Nessa fábula que é Um Conto Chinês vi aí um sinal de que havia em Roberto uma disposição para arrumar sua “bagunça” e para permitir que outro colaborasse com isso, como em um processo terapêutico.

Roberto, como disse um colega do Rio de Janeiro que também discutiu esse filme, nos conclama a perguntar: como tratar os Robertos?