2009 - 2º Semestre

Venus (Inglaterra 2006)

Filme do dia 14 de novembro de 2009

Comentários Flávio Viegas Amoreira e Vera Lucia Blank Gonçalves

Tema do Semestre: Transformações

“É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Fernando Pessoa
O tema escolhido nesse semestre – Transformações – é para mim muito inspirador, e eu agradeço
o convite feito pelo Ciclo de Cinema que me oferece a oportunidade de poder conversar com vocês
sobre esse filme sob o vértice psicanalítico, comparando-o, se me permitem, com o amoroso trabalho
do analista com seu paciente, que é especialmente transformador.
O psicanalista e seu paciente vão criar, no espaço intra e inter psíquico de suas mentes, vivido
no setting psicanalítico, uma nova relação,que nasce desse novo encontro e que dará vida a uma
nova e única história capaz de reorganizar aquelas histórias antigas e saturadas. O foco agora está
voltado para o funcionamento do par, na dupla que se formará desse novo encontro, numa oscilação
contínua entre as transferências, entendidas como repetição e projeção para o mundo externo dos
“fantasmas” do mundo interno.
E como a psicanálise vale-se do vértice científico mas também do vértice artístico,e como
ninguém fala à alma humana melhor do que poetas, insiro em momentos que julguei oportuno a
poesia de Fernando Pessoa.
Podemos pensar que tudo na vida é transformação; quando fazemos um vínculo afetivo com
alguém estamos sofrendo transformações!Todos os acontecimentos que nos atingem nos
transformam: quando perdemos uma pessoa querida, com o passar do tempo nos acostumamos com
a sua ausência? Ou apenas sobrevivemos a essa perda? Como lidamos com a morte, com o
sofrimento? Com revolta? Ou aceitação? O filme trata desses temas com profundidade, na pessoa
dos velhos amigos: Ian, sempre de mal com a vida, revoltado com o seu envelhecimento, à espera da
morte, e o outro, Maurice, que concretamente está vivendo o final dos seus dias – mas ainda um
apaixonado pela vida, pelo amor, pela estética (sua paixão pela arte, sua paixão pelas mulheres)…e
sua deliciosa maneira de se despedir da vida e dos seus prazeres.
Ele sem dúvida ouviu Fernando Pessoa:
Gaste mais horas realizando que sonhando
fazendo que planejando,
vivendo que esperando
Porque embora quem quase morre esteja vivo,
Quem quase vive já morreu.
Os gregos tinham duas palavras para falar do tempo e dos acontecimentos no tempo:
Chronos – (cronologia) onde os acontecimentos são lineares, homogêneos.
Cairos – a palavra marca a diferença entre o que vem antes e o que vem depois. Nesse sentido,
uma mudança catastrófica é mais cairótica do que cronológica, dividindo a história em duas partes,
como por exemplo AC e DC.
Na nossa vida também, e particularmente em situações de análise, podem acontecer momentos
cairóticos, de grandes insights,(para qualquer um da dupla), em função dos quais mudamos muito,
tanto dentro como fora de nós, partindo do mundo do Conhecimento (do já sabido, do conhecido, e
por isso limitado, fechado) para o mundo do Ser (que inclui o desconhecido, o novo, o que ainda está
por ser descoberto).Situações na nossa vida,de grandes cesuras, como
nascimento,casamento,morte,podem se tornar momentos de mudanças cairóticas, que transformam a
nossa maneira de ver o mundo, de compreender a vida, como no filme a chegada de Jessie, uma
jovem aborrecente de seus 20 anos,que muda a vida de todos, de uma maneira ou de
outra!Podemos falar em antes e depois de Vênus…
Sobre o filme:
Ele se chama Maurice e arrasta sua velhice com o amigo Ian. Juntos, eles recordam momentos
passados no palco – velhos atores atrás de algumas pontas para sobreviverem com dignidade. A
rigor, esperam pela morte. Isso até que Jessie, sobrinha-neta de Ian, entra em cena para horror de
Ian e alegria de Maurice. Ian, ao receber a sobrinha-neta, pede por eutanásia e quer devolvê-la de
imediato, por perceber que jamais teria a tão esperada enfermeira sem uniforme! Ele se comporta
como a pessoa que tem o conhecimento fechado, que são as nossas verdades psicóticas, impedindo
que mudanças transformadoras aconteçam…Conhecem pessoas assim?
Já Maurice age diferente: ele faz um novo con–trato:
o sufixo com = junto de;
trato = como é que ele vai ser tratado: uma nova forma do indivíduo ser tratado e encarado,
possivelmente diferente da qual ele estava acostumado… Ousa o novo, o desconhecido, tolera as
frustrações, aguenta o mau humor,vai em busca do ser, nele e no outro…
A começar pelo nome que ele dá a Jessie: Vênus, deusa do amor!Ela que está à serviço de não
se deixar conhecer, da não comunicação!Do menos amor!
Maurice percebe que ali estava sua última chance de viver o amor …e Jessie o seduz para
realizar desejos. Ambos sob a regência do princípio do prazer, estabelecem uma relação quase
simbiótica: ele precisa dela para se sentir vivo; ela o procura para se achar especial.
Maurice apresenta-lhe a beleza do mundo, aliás o filme prima pela delicadeza: uma cena linda
para mim – a dança com o velho amigo na igreja; e a cena em que a garota o autoriza a tocar ao
menos a sua mão. E de cenas sensíveis assim o filme está repleto: despedindo-se da vida ele levaa
para conhecer o que de melhor ele conhece da vida: o mundo do teatro, das artes, ela que é uma
simples garota suburbana, que sonha em ser modelo! Leva-a para assistir um espetáculo no Royal
Court Theatre, leva-a para conhecer sua obra preferida, “Vênus ao Espelho,”de Velázquez, na
National Gallery, introduzindo-a assim nas artes plásticas. Quer vê-la bonita, leva-a para
experimentar roupas, mesmo sem dinheiro para comprá-las; seu objetivo é olhá-la…Puro prazer,
mesmo que para isso desperte seu ódio intenso.
Poderíamos aqui comparar esses momentos com as resistências em análise: ela,sob a égide do
princípio de prazer,ainda sem a condição de ser grata pelo tratamento gentil, tem uma urgência em
repetir as necessidades básicas que não lhe foram satisfeitas e preenchidas no início da vida,
portanto reencontrando nesse novo espaço (analítico) uma oportunidade para repetir tudo: seu amor,
seu ódio, sua confusão, sua angústia,seus vazios… Com Vênus o abandono afetivo, a traição, o
aborto forçado, o ódio, a culpa… E as mudanças psíquicas ocorrerão caso ela encontre no outro um
continente adequado para suas dores…
Jessie afasta Maurice para longe de si com violência cada vez que ele não consegue
satisfazer seus desejos, um belo exemplo da posição esquizo-paranóide de M.Klein: se o objeto
gratifica – é amado; se frustra, é odiado.Não há espaço para o meio termo, ainda não alcançamos
o que M. Klein chamou de posição depressiva,uma integração (que veremos ao final) essa sim com
o despertar do sentimento de culpa e de gratidão pelo amor e cuidados do objeto.
E por sentir-se de novo sedutora e poderosa, Vênus envolve-se com um jovem de mau
caráter,repetindo situações anteriores na sua vida; vemos então as vicissitudes dessa sua escolha,
porém agora já despertando para um sentimento de reparação em relação a Maurice.
Dizer não ao que já é conhecido é ter fé no desconhecido – isso implica em ter liberdade, que tem
tudo a ver com a capacidade negativa de tolerar a frustração.Por exemplo, quando faço escolhas,
eu não sei o que acontecerá com as minhas escolhas, se serão acertadas ou não, mas confio,
acredito que a minha escolha tem a ver com o meu processo de busca da verdade. (A verdade está
na sua busca e não no seu encontro.) A verdade que não está no campo das palavras, mas do ser.
Na psicanálise contemporânea o enfoque está nos vínculos, que determinam a relação intra e inter
pessoais.A ênfase não incide no analista ou no paciente, mas na dupla. O que realmente importa é
o novo espaço que se cria, é o clima emocional, gerando fortes experiências afetivas. Assim, a
maneira de olharmos o paciente também mudou: ao invés de estarmos atentos sobre o que esse
paciente tem de patológico, pensamos qual a reserva de capacidades positivas, e as que estão
ocultas e em estado potencial; daquilo que ainda está à espera de ser descoberto ou resgatado, ou
recriado.
É o que Maurice vive com Vênus, uma situação nova, sem desejo de mudá-la, de transformá-la,
mas simplesmente sendo(sem memória e sem desejo, como preconiza Bion para o analista)
Em relação a esse vir-a-ser Bion utiliza uma metáfora ao afirmar que :
“As potencialidades psíquicas a serem desenvolvidas através de uma relação ou de uma análise
se comportam como as sementes, que representam estágio particular no crescimento de uma futura
árvore”.
Então ele a observa e a escuta, que é diferente de ouvir… eu posso estar ouvindo bem, mas
escutando mal… Sem oxigênio, sem alimento, a plantinha morre…sem afeto, sem compreensão, a
pessoa morre psiquicamente…E essa mudança transforma também o observador.
Sentir-se compreendido, que existe alguém junto, formando uma comunhão: eis uma nova
relação transformadora, que se estabelece a dois…como nos versos de Drummond:
O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no
colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.
A melhor forma de atender desejos, demandas, é compreender, que é mais do que entender. O
conceito de demanda alude a um desejo que não pode ser saciado, e as sucessivas tentativas
fracassadas induzem a pessoa a desejar cada vez mais, com maior ganância aquilo que ela acha que
tem direito, que a vida lhe negou. Muitas vezes uma demanda insaciável, porque o desejo manifesto
nada mais é do que um primitivo desejo, deslocado… Entender remete ao plano intelectual,
compreender é mais no plano afetivo.
Ser analista, portanto, é estar disponível para escutar e compreender as dores de um sujeito,
arriscar-se a sentir como elas ressoam em nós, atentos aos nossos sentimentos, para só então
pontuar, re-significando a dor psíquica que transforma o viver num impasse.
E esse é um longo e árduo caminho: análise é um processo, que se constrói dia a dia no encontro
analítico, na possibilidade de criação juntamente com o paciente. Não é um ponto de chegada.Vejam
no filme quantos encontros, quantos desencontros…
Psicanalisar é navegar num mar de turbulências… Trabalhar com pacientes, muitas vezes tão
regredidos exige do analista uma grande condição amorosa (gostar do paciente) e muito prazer no
seu trabalho para suportar tanta angústia. Se você não se envolve, não tem desenvolvimento.
Assim, o foco desvia-se para o outro lado da dupla – o analista. Que condições emocionais, fruto
da sua própria análise e crescimento pessoal, o analista precisa exercer, com firmeza mas com
delicadeza (pois o objeto é extremamente frágil) – eu diria até com uma certa sutileza – para criar
situação propícia ao “sonhar” do paciente?
E eis que Maurice é o “analista” que transforma com seu afeto, sem pressa, aceitando o ritmo
que Vênus lhe impõe para sua aproximação.E ambos se transformam…
Dá-me tempo de acertar nossas distâncias…como nos versos de Fernando Pessoa.
Quero terminar esses comentários com a colaboração do Dr. David Zimmerman, sobre a difícil
arte transformadora da psicanálise. Diz ele:
No processo analítico, Freud revelou o poder da palavra. Na psicanálise atual, a relação
emocional é o alvo em que a pessoa do analista é conclamada a participar do campo analítico e a
criar o objeto analítico. A psicanálise tem revolucionário e reconhecido poder transformador
quando, por meio do conhecimento do si-mesmo, leva ao desenvolvimento.Para tanto:
Não basta ouvir, é indispensável que ele saiba escutar
Não basta falar, é necessário dizer
Não basta entender, também é necessário compreender
Não basta interpretar corretamente, mas sim eficazmente
Não basta trabalhar com as verdades. É indispensável ser uma pessoa verdadeira.